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Atual instalações da Academia de Polícia Militar

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Passagem do Comando-Geral da Brigada Militar – Coronel Cypriano para Tenente-Coronel Massot, em 1915

A Federação, no dia 31 de março de 1915, quarta-feira, noticiava:

Brigada Militar

Entrega do Comando

Varias informações

Segue hoje, pelo Ipanema, para o Rio de Janeiro, o nosso illustre amigo coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, que por longo espaço de tempo exerceu o cargo de commandante geral da Brigada Militar.    Segue s. exa. para a capital da Republica, a fim de assumir o cargo de chefe do serviço do Estado-Maior da 3ª divisão do Exercito.

O coronel Cypriano foi nomeado commandante geral da Brigada Militar a 15 de março de 1909, assumindo na mesma data o exercicio das funcções innerentes ao elevado cargo em que o colocava a confiança do patriotico governo do Estado, solidamente fundada nas experimentadas qualidades do distincto militar, evidenciadas atravez de uma vida cheia de serviços á causa publica.

Desde então começou o coronel Cypriano a pôr em pratica uma série de medidas, que se synthethisam n’um plano completo e maduramente concebido, ao qual se deve o magnífico estado em que se encontra a milícia estadual sob todos os pontos de vista.

Assim, propoz, obtendo immediata approvação, novos planos de uniformes e de arreiamento para officiaes e praças, sendo, em virtude dessa reforma, creado o uniforme de gala para officiaes e praças e adoptado elegante arreiamento para o serviço da cidade.

Creou o Conselho Administrativo da Brigada, extinguindo os dos corpos, com a grande vantagem de permittir ao Commando Geral não só o conhecimento perfeito do movimento administrativo de todos os elementos de que se compõe a milicia, mas também o emprego equitativo das economias em proveito de toda a força.

Por conta da Caixa da Brigada, construiu a Linha de Tiro, uma das melhores do Brazil, despendendo nesse serviço cerca de 70:000$000. A construcção foi iniciada em outubro de 1909 e terminada em novembro de 1910.

Na antiga Chacara das Bananeiras, em terrenos do Estado, onde se acha localisada a Linha, innumeros melhoramentos foram introduzidos, ahi vendo-se hoje o Picadeiro, construcção resistente e elegante, que veiu abrir nova phase de progresso à equitação no Rio Grande; o Deposito de Carruagens; o Paiol de Munição; o quartel dos recrutas; baias para grande numero de animaes; uma caixa d’agua donde se distribue agua encanada para os diversos edifícios; uma excelente estrada de rodagem, conduzindo  ao arroio Ferradura onde se fez uma represa e se acham as machinas precisas para sucção e elevação de agua que, canalisada, vae ter á caixa, quando a vertente que alimenta esta se torna insufficiente; extensas plantações de forragens e legumes, açudes e potreiros, divididos por cercas de moirões de pedra e arame farpado, que delimitam, assim, o terreno pertencente ao Estado; quatro casas occupadas por posteiros encarregados da vigilancia das cercas e dos animaes; outras casas ainda para os  officiaes  encarregados de auxiliar a instruccão, etc.

Levou a effeito o coronel Cypriano a conclusão do Quartel de Infantaria sito á Praia de Bellas, adaptando-o a dois corpos, e transformou em Quartel da Escolta Presidencial o edificio em que
funccionavam as officinas da Brigada, que foram transferidas para outro prédio, á rua Sete de Setembro, e cuja capacidade de produção foi melhorada.

Em consequencia dessas reformas, adaptou o Quartel de Infantaria do Crystal, localisado á margem esquerda do Guahyba, para o 1º Regimento de Cavallaria, então aquartelado em Gravatahy, onde se  achava mal alojado, estabelecendo nesse local um Posto de Veterinaria e uma boa officina de ferraria, especialmente para o fabrico de ferraduras, tudo sob a direcção de um alferes veterinário.  Remodelou a Invernada de Gravatahy, a fim de melhor corresponder ao seu objectivo.

Transformou a Enfermaria do Crystal, construiu o isolamento para moléstias infecto-contagiosas e realisou com as irmãs franciscanas o contracto para o serviço hospitalar.

Creou o logar de major chefe do serviço sanitario, adquiriu abundante e moderno material cirurgico, instituiu o Serviço de Padioleiros, importando da Europa e fazendo aqui construir numerosos modelos de padiolas para o serviço de guarnição e de campanha.

Adoptou perneiras para toda a tropa, substituiu o antigo equipamento e material de campanha muito deficiente, por outros de systema mais adiantado.

Substituiu a espadas dos officiaes por outras de formato mais elegante e mais leve, e as lanças antigas por modernas hastes de bambú.

Fez a acquisição de excellente material de sapa com que dotou a tropa de infantaria.

Modificando ainda uma vez o plano de uniformes com grande economia para os cofres do Estado, instituiu o uniforme de campanha, consequência das múltiplas manobras a que se entregou a força durante o seu comando.

Creou o Serviço de Signaleiros nos corpos, implantou a instrucção civica e moral, incrementou, o ensino litterario nas Escolas Regimentaes e da Brigada, encaminhou a officialidade na execução dos levantamentos topográficos expeditos.

Creou a Bibliotheca da Brigada, bem provida de escolhidas obras litterarias, scientificas e militares e inaugurou nos corpos as palestras militares semanaes.

Organisou a Banda de Musica da Brigada, creando o cargo de alferes inspector de todas as bandas.

Montou apparelhos completos de gymnastica em todos os quartéis e cinematographos nos da Praia de Bellas e do Crystal.

Passou para o Estado-Maior da Brigada o secretario, o ajudante de ordens e o adjunto do assistente do material.

Creou as secções dos serviços auxiliares, artífices, conductores, amanuenses e enfermeiros, e melhorou, uniformisando e simplificando, a escripturação dos corpos e repartições, augmentando assim o tempo disponível para os exercicios práticos e estudo correspondente.

Iniciou o provecto comandante geral da Brigada Militar as resoluções de themas tacticos, realizando grandes manobras em S. Leopoldo e proximidades de Canoas, nos Campos do Cortume, terrenos do Estado. Transformou estes em um excellente campo de manobras, ahi fazendo, as installações necessarias para o conforto e hygiene do pessoal e comunicações faceis e rapidas com a capital.

Em seu commando ainda creou e organizou-se o 2º Regimento de Cavallaria em Sant’Anna do Livramento, sendo de sua iniciativa a construção do confortável quartel onde está alojado esse corpo naquella cidade.

Jamais descurando do aperfeiçoamento tactico do pessoal e do aparelhamento necessário a maxima efficiencia da força, propoz a creação de um Grupo de Metralhadoras, o que se verificou
em 16 de novembro findo, e organizou-o em 6 de março do mez corrente, provendo-o de todo o
material o animaes necessários.

Desde os primordios do seu commando foi o coronel Cypriano efficazmente assistido por instructores vindos do exercito.

Systematisou os variados serviços administrativos, todo regulamentado.

Assim, deve-se-lhe a elaboração dos seguintes regulamentos: geral da brigada, do meio soldo, do Conselho Administrativo, do serviço interno e de guarnição, do serviço sanitário e de veterinária, penal, da Linha de Tiro, de continências, de exercícios de infantaria, de cavallaria, de metralhadoras, de gymnastica, esgrima de espada, lança e bayoneta, de signaleiros, do serviço de segurança, em marcha e em estação, de padioleiros, dos trabalhos de campanha, da ordenança de cometas e clarins.

O programma de instrucções, que mandou organizar pelos instructores, regulamentou, systhematizando todo o ensino militar pratico, individual e collectivo; e graças a esse programma, não existe hoje na Brigada Militar um só individuo que se não tivesse adestrado na instrucção do tiro e ainda uma só unidade que não houvesse executado divrrsas vezes o tiro collectivo.

Foi, finalmente, o coronel Cypriano Ferreira quem instuiu os prêmios individuaes e coIlectivos para os atiradores e unidades, creando ainda os distinctivos para aquelles.

Eis em traços rápidos, mas sobremodo eloquentes, o resultado da acção do coronel Cypriano durante o período relativamente curto de seis anos em que esteve à testa do comando geral da Brigada Militar do Estado.

Nada mais é preciso acrescentar a essa exposição simples das reforma porque passou a milícia estadual para aquilatar-se da extraordinária atividade da dedicação, da competencia do coronel Cypriano e de mais esse inestimável serviço que o digno militar prestou ao Rio Grande do Sul.

Passagem do comando

No quartel do Commando Geral effectuou-se hontem às 18 horas, a passagem do comando geral da Brigada Militar ao tenente-coronel Affonso Emilio Massot, mais antigo dos officiaes dessa graduação.

A’quella hora, estando presentes todos os officiaes da Brigada, em 2º uniforme e armados, chegava ao referido quartel o Coronel Cypriano.

Reunidos no salão nobre, o referido oficial, tomando a palavra, entregou o commando ao seu substituto, fazendo elogiosas referencias ao coronel Massot, como aos demais officiaes.

Em seu nome e em nome deste respondeu agradecendo o tenente-coronel Massot.

Em seguida, foram lidas pelo secretario, as seguintes ordens do dia:

Quartel do comando geral da Brigada Militar, em Porto Alegre, 30 de março de 1915.

ORDEM DO DIA Nº 30

Para conhecimento e devida execução, publico o seguinte:

ENTREGA DE COMMANDO

Tendo de retirar-me para o Rio de Janeiro, onde vou ocupar o cargo de chefe do serviço de Estado-maior no quartel da 3ª Divisão, passo nesta data o comando da Brigada Militar, na forma do regulamento, ao tenente-coronel Affonso Emilio Massot, comandante do 2º Batalhão.

Entregando hoje este comando que exerci por espaço de mais de 6 annos, lisongeia-me sobremodo o grau satisfactorio de instrucção e disciplina em que deixo a força militar do Rio Grande, que fica com seus múltiplos e variados serviços organizados e regulamentados.

Para esse resultado, que foi objecto de minha preocupação constante, muito contribuíram auxiliares dedicados que prestaram ao meu comando inestimável concurso, de conformidade com as atribuições e deveres impostos ás funções de cada um.

Assás desvanecido pelas demonstrações de affectuosa consideração á minha pessoa e referencia, não só ao estado actual da força, como á acção de meu comando por ocasião da visita de despedida que fiz aos corpos e repartições, envio a todos, chefes, officiaes e praças, um cordial abraço de despedida, fazendo votos pela felicidade e gloria da Brigada Militar.

(Assignado) Cypriano da Costa Ferreira, Coronel.

Quartel do Commando Geral da Brigada Militar, em Porto Alegre, 30 de março de 1915.

ORDEM DO DIA Nº 31

POSSE DE COMMANDO

Conforme fez público a Ordem do Dia nº 30, do sr. Coronel Dr. Cypriano da Costa Ferreira, deixa hoje este ilustre oficial do Exercito o comando da Brigada Militar do Estado, que é-me transmitido, em obediência ás prescrições do art. 9º, paragrapho único do regulamento em vigor.

Assumindo as elevadas funções deste posto, procurarei exercel-as distribuindo justiça e cumprindo fiel e lealmente as ordens emanadas do Exmo. Sr. Dr. Presidente do Estado.

(Assignado) Affonso Emilio Massot, Tenente-Coronel

Logo após a leitura das ordens do dia, tomou a palavra o capitão dr. Eurico de Oliveira Santos que, em nome dos officiaes do Estado-Maior, fez a entrega ao coronel Cypriano de um bronze representando “As conquistas do Homem”, acompanhado de um cartão de prata com os seguintes dizeres:

Ao eminente remodelador da Brigada Militar, coronel Cypriano da Costa Ferreira, lembrança dos officiaes que serviram no seu Estado-Maior. Março de 1915.”

Offerecendo um quadro com a fotografia da banda de música, falou o maestro, alferes Pedro Borges, que entregou também ao coronel Cypriano uma medalha de ouro, lembrança do pessoal da mesma banda.

Terminada a solenidade o coronel Cypriano retirou-se para sua residencia, sendo acompanhado pelo major Leopoldo Ayres de Vasconcelos.

Na parte externa do edifício achava-se postada a grande banda da Brigada Militar, que executou diversos trechos.

Outras notas

O tenente-coronel Affonso Emilio Massot poz á disposição do coronel Cypriano o seu ajudante de ordens, alferes Jorge Pellegrino Castiglione, que o acompanhou até o Rio Grande.

Por determinação do commandante-geral, a oficialidade da Brigada Militar, em uniforme 2º e armada, irá hoje ao Grande Hotel, de onde acompanhará o coronel Cypriano até o “Itapema”, a cujo bordo segue o ilustre militar.

Nas imediações do trapiche, formará, prestando as continências que tem direito aquelle oficial, o 1º Batalhão de Infantaria da Brigada Militar.

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXII, edição 074, de 31/03/1915, quarta-feira, páginas 1 e 2 – *Mantida a grafia da época.

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Instruções para o Serviço de Padioleiros – Parte V

 A Federação, no dia 27 de fevereiro de 1914, sexta-feira, noticiava:

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte V

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

Á vóz – abrir fileiras – os padioleiros números 2 e 4 (cerra-fila) darão três passos á rectaguarda, ou, havendo obstáculo ahi, os numeros 1 e o 8 (chefes de filas) farão o mesmo para a frente. O sargento passará, então, revista, verificando se o material está em ordem, a fim de providenciar.

Á vóz – preparar para armar padioIas – o padioleiro numero 8 faz, por meia volta á direita, frente á retaguarda e entrega a cabeceira da padiola ao padioleiro numero 2, que a segura com a mão esquerda, ficando o numero 3 com a outra extremidade da padiola; o padioleiro numero 1 dá um passo a retaguarda e o numero 4 um passo á frente, mudando ambos a frente para o centro da padiola.

A vóz – armar padiolas – os padioleiros numeros 1 e 4, auxiliados pelos outros dous, começam a armal-a, retirando primeiro os suspensorios que a envolvem e desenrolando-os da esquerda para a direita, collocando-os em seu pescoço; em seguida os números 2 e 8 que seguram as extremidades da padiola, tendo o pé direito para a frente, giram e abrem as hastes da padiola; então os numeros 1 e 4 collocam as travessas, convindo sempre que o numero 1 colloque a travessa dos pés o e números 4 a da cabeceira.

Armada a padiola, os padioleiros numeros 1 e 4 enfiam as alças dos suspensorios nos braços das respectivas padioIas, collocando a parte do centro dos suspensorios sobre a lona da padiola. Isto feito, está a padiola armada e, conforme as necessidades do momento, o sargento de saúde dará a vóz – descançar padiolas – o que será feito do seguinte modo: os padioleiros numeros 2 e 4 depoem a padiola no chão e ficam entre as suas hastes, tomando todos a frente primitiva da formatura. Nesta posição esperam a vóz – a soccorro – a fim de marcharem para os pontos indicados conforme a necessidade da occasião, procedendo da seguinte forma: no grupo que entra em serviço; os padioleiros numeros 2 e 3 seguram e suspendem as hastes da padiola, collocam os suspensorios no pescoço (figura n. 10) e seguem ao destino ordenado pelo sargento de saúde; os números 1 e 4, que sahem conjuntamente com o grupo, decorridos alguns passos de distancia acceleram a sua marcha e chegam primeiro ao local onde se acha a praça que necessita de soccorros, ahi procedem aos necessários e urgentes cuidados, recorrendo de preferencia ao pacote de curativo individual do soccorrido ou de peças de seu fardamento ou equipamento, reservando sempre a carga de suas bolsas sanitarlas; nesse Ínterim, chegam os padioleiros numeros 2 e 3, portadores da padiola, os quaes obedecem a vóz do padioleiro numero 1, que determinará a collocação da padiola á direita ou á esquerda do ferido, conforme a localisação do ferimento.

A padiola será sempre collocada a um passo de distancia do ferido ou doente e paralelamente a elle. Collocado o soccorrido na padiola, esta poderá ser conduzida pelos padioleiros 2 e 3 ou, enitão pelos quatro padioleiros, tendo a vóz de commando o numero 1, que deverá ser o padioleiro de maior aptidão, o qual guiará o grupo a fim de ser feito o transporte em boas condições de estabilidade e accommodação do transportado.

Sempre que a padiola conduzir enfermo ou ferido, convém observar o seguinte: o padioleiro ou os padioleiros que a forem conduzindo na frente devem romper a marcha com o pé esquerdo e os que forem na retaguarda romperão a marcha com o pé direito, o que é de grande vantagem a fim de diminuir o balanço da padiola; o passo deve ser regular, curto e igual, reduzido, mais ou menos, a 2/3 do passo ordinário; todos os padioleiros devem procurar dar á padiola uma marcha regular sem trepidação, para o que convém marchar em cadencia moderada, combinando os passos, evitando saltos, flexionando brandamente, as coxas e os joelhos e pisando com o pé em cheio no cheio no chão; em taes condições o passo póde ser accelerado, quando o estado do soccorrido o permitir, observando-se sempre os preceitos acima referidos. Quando a padiola estiver vasia, o passo deve ser accelerado. Os padioleiros numeros 1 e 4, principalmente quando não vão conduzindo a padiola, devem transportar, quando possivel, as peças de fardamento, equipamento e armamento do soccorrido, que não foram aproveitadas para o soccorro, tendo o cuidado de descarregar o fuzil arrecadando a munição que distribuirão entre os atiradores.

Relativamente ao passo reduzido aos 2/3 do seu comprimento ordinario, Lougmero faz notar que ha sob o ponto de vista dos movimentos de oscillação, diferença notável ente o passo ordinário e o passo reduzido de 1/3. Quando dous padioleiros conduzem uma padiola vazia, dando passos de 30 pollegadas, de calcanhar a calcanhar, o movimento oscillatorio é de 3 ½ pollegadas (8 centímetros); com a padiola carregada e com o mesmo passo, esta oscillação é de 4 ½   pollegadas (11 centimetros). Quando o passo é reduzido a 1/3 (2 pollegadas), a oscillação da padiola vazia é de 1 ½ pollegada e a da padiola carregada é de 2 ¼ polegadas (5 ½ centímetros), portanto, a oscillação fica reduzida á metade da que haveria se o passo fosse ordinário. Chegados á barraca-hospital, o soccorrido será entregue ao enfermeiro mór e nos Postos de Socorros ao cabo de saúde, que darão conhecimento aos médicos de serviço. Em seguida o grupo de padioleiros regressa ao campo de acção, se for preciso, ou irá para o local da formatura receber novas ordens.

Uma vez terminado o serviço, o sargento de saúde, mediante ordem do médico-chefe dará voz – desarmar padiolas – manobra de fácil execução, por isso que é o inverso de armar, sendo os tempos idênticos, porem em sentido contrario.
Feito isto, a guarnição voltará á formatura primitiva, isto é, com a padiola perfilada, etc., e será, finalmente, dada a vóz — recolher padiolas — para cuja execução irá recolhendo cada padioleiro á repartição competente o material que tiver recebido.

OBSERVAÇÃO

Caso tenha havido estrago ou desarranjo na padiola ou em seus accessorios, o padioleiro numero 1 dará disso conhecimento immediato ao sargento de saúde, a fim de dar este parte do occorrido á auctoridade competente. Por essa ocasião, terminado, portanto, o serviço affecto aos padioleiros, o sargento de saúde os conduzirá para seu corpo, salvo se
receber ordem em contrario.

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 048, de 27/02/1914, sexta-feira, página 4 – *mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Instruções para o Serviço de Padioleiros – Parte IV

A Federação, no dia 24 de fevereiro de 1914, terça-feira, noticiava:

Brigada Militar

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte IV

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

Descripção da padiola

Entre os innumeros meios de transportar doentes ou feridos durante o combate (cacoletes, liteiras, ambulâncias de 4 rodas ou omnibus, que podem conduzir até 10 pessoas sentadas, carros ambulancia leves, de 2 rodas, que podem conduzir, até 6 pessoas sentadas, etc.) indubitavelmente a padiola é o mais commodo, tanto para elles como para as praças que os conduzem.

Entretanto apesar do não estarem muito em voga os cacolets e as liteiras, que no exercito francez foram substituídos pelos carrinhos porta-padiolas (brouette porte-brancard), juntei as respectivas estampas para serem conhecidos esses dous meios de conducção de feridos e doentes, que aliás julgo de vantagem quando se opera em terrenos accidentados. Esses meios, pois, têm relativa importancia.

O transporte feito a braços ou sobre os hombros é o menos conveniente, por ser penoso e fatigante. Ha uma grande variedade de typos de padiolas, que differem entre si por pequenas modificações em suas peças accessorias (Franck, Macquet etc).

No Exercito Nacional os modelos mais uzados de padiolas são o de Franck e o de Macquet, modificado por Vidal; este, por ser mais portátil e commodo, será provavelmente adoptado no serviço de padioleiros da Brigada Militar.

Segundo a opinião competente do coronel dr. Antonio Ferrreira do Amaral, Director do Hospital Central do Exercito, as padiolas supracitadas são, no genero, o quo ha de mais expedito e seguro, dando ao doente e aos conductores fácil e commodo transporte e prestam-se para leito dos doentes graves e para mesa de operação.

A padiola Macquet compõe-se de duas hastes, cujos extremos chamam-se braços; são ambas enfiadas em bainhas lateraes feitas em uma lona resistente, que constitue o leito da padiola, tendo na cabeceira uma dobra em forma de bolça, destinada a ser cheia de palha, constituindo assim o travesseiro. Em cada extremidade da padiola, tanto das cabeceiras como dos pés, é collocada uma travessa de madeira, munida de dois orificios, em que são enfiados os braços da padiola, a fim de manter suas hastes afastadas, em posição parallela, dando ao conjuncto a fórma rectangular.

A travessa da cabeceira é enfiada em uma bainha existente na lona (travesseiro); a dos pés é munida de dous outros orifícios, no centro, pelos quaes passam duas correias de couro, fixadas á lona que se estica á vontade, por meio de duas fivelas presas ás correias.

Cada travessa tem em suas extremidades dous pés articulados da padiola, que póde assim ser aproveitada como cama em caso de necessidade.

Tem dous suspensorios de couro, cada um munido de fivéllas em suas extremidades, que servem para ajustar essa peça accessoria ao corpo do padioleiro e para manter, quando desarmada a padiola, o seu enrolamento, a fim de ser conduzida mais facilmente.

 Formatura — Armar e desarmar padiolas

Os padioleiros sob o commando do mestre de musica, 1º sargento de saúde ou do seu substituto legal, o contra-mestre, 2º sargento de saúde, quando requisitados, apresentam-se, na ambulancia ou Barraca-Hospital, ao medico de serviço, e aguardam ordens, a dez passos de distancia da barraca, com o seu pessoal formado em duas fileiras unidas.

— Formações —

Uma vez apresentado, o sargento de saúde espera ordens, que poderão ser, ou a de descanço ou a de preparar-se para armar padiolas e nesse caso o sargento de saúde retira-se incontinentemente e põe o seu pessoal prompto para o serviço, fazendo as seguintes evoluções:
Á vóz de — direita — volver — metter por altura – esquerda — volver; os padioleiros tomam lugares, de sorte que os mais altos occupam a fileira da retaguarda e volvem á frente primitiva. Segue a voz – abrir intervalos para a esquerda,

A esta vóz os padioleiros, a começar da direita, estendem o braço esquerdo até alcançar com a mão o hombro direito do padioleiro que lhe fica á esquerda, fazendo passo lateral à esquerda até ficarem com os intervalos necessários.

Os padioleiros deixam cahir o braço sobre a coxa correspondente. Á voz de enumerar filas, os padioleiros, a começar pela direita, vão numerando-se, de maneira tal que o primeiro padioleiro á direita toma o numero um e o seu cerra-fila o numero dous; o chefe de fila immediato dará o numero três e o seu cerra-fila o numero quatro e assim successivamente vão numerando-se de quatro em quatro, formando desse modo as guarnições correspondentes a cada grupo de padioleiros.

A cada padiola é, portanto, dada uma guarnição de 4 homens (Prussia, Russia, Inglaterra), sendo 2 para a condução do ferido e 2 auxiliares.

Depois de numerados, o sargento de saúde dá a voz – destacar grupos . Os padioleiros números 3 e 4 unem, respectivamente, aos padioleiros números 1 e 2 que lhe ficam á direita, ficando desta sorte um espaço aproximado de dous passos entre os respectivos grupos, que tomam os números primeiro, segundo, terceiro grupo, etc., sempre contando da direita para a esquerda.

Os grupos assim enumerados, em ordem, facilitam o serviço, dando-lhe melhor methodo. Á voz receber padiolas e bolsas sanitárias, os padioleiros numero 3 dão um passo á frente, em seguida o sargento dará a voz á direita (ou á esquerda) marche, conforme o local em que estiver o carro, onde se acham guardadas as padiolas e ahi serão entregues pelo conductor do respectivo carro a cada padioleiro uma padiola, que elle conduzirá em posição horizontal, sob o braço direito, devendo os padioleiros guardar entre si, tanto na ida como na volta, os seus intervallos. Em seguida à partida dos padioleiros numeros 3, o sargento de saúde dará a voz á direita (ou á esquerda) marche aos padioleiros números 1, que saem de forma e vão á Barraca-Hospital, onde cada um receberá quatro cantis para o respectivo grupo e duas bolsas sanitárias que ficarão consigo. Recebidos os objectos, os dois chefes de fila de cada grupo entrarão novamente em forma, depois de distribuir os cantis, mantendo os padioleiros numero 3 a padiola perfilada no braço esquerdo, com a cabeceira voltada para cima. Os braços da padiola e a cabeceira serão pintados de cor differente da do restante.

(Continua)

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 046, de 24/02/1914, página 3 – *mantida a grafia da época

24 02 1914 - INSTRUÇÕES PARA O SV DE PADIOLEIROS IV G

24 02 1914 - INSTRUÇÕES PARA O SV DE PADIOLEIROS IV E

24 02 1914 - INSTRUÇÕES PARA O SV DE PADIOLEIROS IV F

 

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Instruções para o serviço de Padioleiros – Parte III

A Federação, no dia 20 de fevereiro de 1914, sexta-feira, noticiava:

BRIGADA MILITAR

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte III

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

Meios improvisados de transporte de feridos ou doentes

Para o transporte de feridos e doentes nos combates ou manobras há, além dos meiois technicos adequados a esse serviço os meios improvisandos ou de occasião, que são de transporte a braço e em padiolas improvisadas, por meio de varas, cordas, saccos, peças de fardamento, equipamento, armamento, etc. Sabe-se que nem sempre a intensidade do fogo nos combates e a situação dos combatentes entre si permittem a retirada immediata dos feridos e doentes cujas vidas ficam assim em maior perigo; em outros casos, os accidentes do sólo concorrem para difficultar o transporte e ás vezes, a propria natureza do ferimento o impossível pelos meiois de occasião, não podendo assim esses infelizes feridos receber um primeiro soccorro indispensável. Entretanto um transporte improvisado com arte e um primeiro soccorro aplicado com habilidade, transforma ferimentos graves em leves accidentes, dando logar, ás vezes, a salvar muitos soldados da imminencia da morte.

Os accidentes do terreno, ou obstáculos por ventura ahi encontrados ou ainda a falta da padiola impõem, ás vezes, o transporte dos feridos a braço e em grandes distancias, o que o torna penoso.

Vê-se desde logo que o transporte a braço por um só padioleiro, aliás de uso frequente só pode ser feito por um homem vigoroso e tendo de percorrer pequenas distancias. Ha dous modos de conduzir assim um ferido, cujos processos se acham claramente descriptos na lnstrucção de Padioleiros, em manobras e em campanha, em vigor, actualmente no Exercito Nacional.

Estas instrucções a elles se reportando, adoptarão o methodo seguido na Escola de Enfermeiros e de Padioleiros Militares do Serviço de Saúde do Exercito Francez, considerado um bom manual technico desse ramo de serviço militar.

1º processo – transporte ás costas – O padioleiro põe o joelho em terra diante do ferido e de maneira a dar-lhe as costas.

O ferido passa-lhe os braços em torno do pescoço e o padioleiro, segurando-o pelas curvas das pernas, iça-o ás costas e levanta-se. Para facilitar o movimento de levantar poderá o padioleiro procurar um ponto de apoio na frente e ajudar-se com um bastão ou com o próprio fuzil.

2º processo – transporte a braço – O padioleiro, collocado junto do ferido põe o joelho em terra e passa lhe o braço sob os rins e as nadegasa; o ferido, por seu turno, passa os braços em redor do pescoço do padioleiro, se levanta, firmando-se na perna não flexionada.

Observação – O transporte ás costas é preferível ao transporte a braço, mas é preciso que o doente possa auxiliar o padioleiro e tenha forças pura bem firmar-se no pescoço do mesmo.

No transporte a braço por dous padioleiros, o ferido póde ser transportado em duas posições: sentado ou deitado.

1º methodo – sentado – Dois processos pódem ser empregados: a duas ou a quatro mãos,

1º processo – transporte a duas mãos – Os padioleiros põem o joelho em terra, ao lado do ferido, que é collocado de cócoras.

Unem primeiro as mãos que estiverem dirigidas para os pés do ferido e passam-nas por baixo das nadegas; em seguida cruzam as outras duas por sobre o dorso do mesmo, que passa os braços em torno do pescoço dos padioleiroa, se puder, e apenas um, quando for o ferimento situado num dos membros superiores.

Á voz – Sentido – Levantar – os padioleiros se levantam.

Á vóz – Em frente – Marche – o da direita rompe a marcha com o pé direito e o da esquerda com o esquerdo.

2º processo – transporte á quatro mãos – Si o ferido tiver forças para auxiliar-se e puder servir-se dos braços, farão os padioleiros uma cadeirinha com as mãos, o que permittirá um transporte mais commodo.

Os padioleiros, collocados ao lado do ferido, põem o joelho em terra, e cada um segura o seu punho esquerdo com a mão direita e depois, com a mão livre, segura o punho livre que o companheiro lhe apresenta.

Assim formada a cadeirinha, o ferido procura sentar-se pelo modo mais fácil, passando os braços em torno dos pescoços dos padioleiros ou por baixo dos braços.

Á vóz – sentido – Levantar – os padioleiros levantam-se.

Este modo de transporte é não somente mais commodo para o ferido do que o transporte a duas mãos, como também menos fatigante para os padioleiros, que poderão assim vencer maiores distancias com esforço menor.

Observação – Póde-se substituir as mãos por um anel de corda ou de palha trançada, ou ainda por um pedaço de panno rectangular, cujas extremidades são cosidas em redor cylindros de madeira.

Os padioleiros que com uma das mãos livres, della se servem para sustentar o dorso do ferido.

2º methodo – Posição deitada – Tres processos podem ser empregados:

1º processo – Os padioleiros são collocados um de cada lado do ferido.

2º processo – Os padioleiros são collocados ambos do mesmo lado do ferido .

3º processo – O ferido é mantido pelas extremidades.

Os padioleiros collocam-se da seguinte forma: o n.1 entre as pernas do ferido, o n. 2 por traz da cabeça. Tendo posto um joelho em terra, o n. 2 levanta a cabeça do ferido, que aplicca contra seu próprio peito, passa os braços de traz para deante por baixo dos braços do mesmo, cruzando as mãos por diante do peito.

O n. 1 pende o corpo para a frente, voltando as costas ao ferido e ao padioleiro n. 2 , que segura-lhe as pernas, passando as mãos de fora para dentro pelas curvas.

Á vóz – Sentido – Levantar – os dois padioleiros se levantam.

Á vóz – Em frente – Marche – rompe a marcha com o mesmo pé.

(Continua)

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 043, de 20/02/1914, página 6 – *mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO – Instruções para o Serviço de Padioleiros – Parte II

A Federação, no dia 18 de fevereiro de 1914, quarta-feira, noticiava:

BRIGADA MILITAR

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte II

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

Preliminares

Durante a conducção dos soccorridos, qualquer que seja a topographia do terreno, deve-se dar á padiola, sempre que fôr possível, posição horizontal, aprendendo préviamente os padioleiros com o respectivo instructor as regras a observar na transposição de obstáculos, na uniformidade do passo, na passagem de um fosso, etc. (manobras muito bem ensinadas e postas em pratica por M. Cesary, um dos chefes da Escola de Applicação de Medicina Militar de Val-de-Grace).

Nas subidas e descidas muito ingremes, deve-se ter o cuidado de conservar sempre em posição mais alta a cabeceira, flexionando ou alongando para isso os braços e as pernas.

Quanto ao tempo necessario para transportar um ferido ou doente do campo de batalha ou de manobras ao Posto de Soccoros, conforme experiencias de Longmore a esse respeito, está calculado que são necessários, na média, numa distância de 1.200 a 1.800 metros, em terreno plano, 26 minutos; levando mais 18 para o regresso, o trajecto completo da padiola gastará, pois, 44 minutos. Accrescentando-ae a esse tempo mais 12 minutos, para dar ao ferido ou enfermo os soccorros imediatos e imprescindiveis, conclue-se que são precisos 60 minutos ou uma hora para vir uma padiola, transportando um ferido ou enfermo do campo ao Posto de Soccorro e voltar vasia ao ponto de onde partiu. Vê-se pelo exposto que, uma guarnição de quatro homens não poderá transportar, durante um dia, mais de doze a quinze feridos, dado que faz ver que é bastante insuficiente este modo de transporte, desde que haja numero considerável de feridos ou doentes; mas, deve-se ter em conta que muitos destes podem por si transportar-se, sem serem carregados por padioleiros; resulta, pois, o quanto é importante não perder tempo e andar nesse serviço com muita actividade, especialmente havendo affluencia de feridos.

Em regra geral, devem ser transportados em primeiro logar os feridos com hemorrhagias graves e os que forem atingidos por ferimentos da cabeça, pescoço, tronco ou membros inferiores.

Nas considerações acima não levamos em conta o tempo variável que pode ser gasto na exploração do campo de combate, feita pelos padioleiros na procura de feridos que podem se achar nos logares onde foram feridos ou em outros pontos, a que foram ter por instincto de conservação própria, procurando occultar-se em obstáculos naturaes, depressões do terreno, casa, material bellico, etc., conforme a situação dos combatentes. O tempo desse serviço ainda pode variar, uma vez que seja feito á noute, attentas ás dificuldades produzidas pela escuridão, apezar dos recursos da luz artificial, algumas vezes de uso difficil e inconveniente.

Na guerra russo-japonesa, refere Matignon, os japoneses supprimiram os meios de illuminação, por despertarem a attenção do inimigo.

Para auxiliar ou facilitar a procura dos feridos é habitual o uso de gritos repetidos, e com intervallos regulares para se fazerem entender e chamar os padioleiros; M. de Beaufort teve a idea de munir cada soldado de um apito, por meio do qual poderia pedir soccorro em caso de achar-se o ferido no campo, em estado de não poder andar, nem fallar. Matignon imaginou adaptar um apito na placa de identidade, usado em alguns exércitos.

Na busca de feridos ou doentes, podem ser empregados os cães sanitários, que bons serviços prestam.

O major médico dr. Bichelonne e o capitão Tollet citam preciosos serviços prestados pelo cão sanitario, em varias guerras, o qual tem sido introduzido em muitos exércitos, onde recebe a competente instrução e faz bellos exercicios.

A França, Belgica, Hollanda, Suecia, Italia, Allemanha, etc. possuem seus cães sanitários já experimentados com excellentes resultados nas guerras anglo-boer e russo-japoneza, segundo escreveu o dr. Berthier, em 1910. Vem a propósito lembrar que nas batalhas prolongadas ou em que o serviço de remoção de feridos e doentes seja interrompido por haver fogo muito intenso e continuado, será de vantagem que os padioleiros conduzam comsigo embornaes com um pequeno farnel (pão, biscoutos, bolachas, etc.) a fim de levantar as forças dos feridos que porventura não tenham se alimentado por muitas horas e se achem transidos de fome ou muito enfraquecidos.

Todo o material de serviço affecto ás secções de padioleiros terá pintado, emlogar conveniente, uma cruz vermelha, com dimensões proporcionaes. Cada carro ambulância terá, além disso preso em pequena haste, no flanco esquerdo da boleia, um galhardete de flanela branca contendo no centro o mesmo symbolo.

Como se vê pelo exposto, não possuindo a Brigada, de accôrdo com sua organização, um corpo especial de padioleiros, ficou o pessoal desse serviço constituído pelo das musicas. Dessa dependencia decorre que não pode haver apurado rigor na exigência dos predicados indispensáveis ao padioleiro. O pessoal desse serviço, vindo da musica para a qual entrou directamente, isto é, com deveres muito diversos, nem sempre poderá reunir em si as condições physicas, Moraes e intellectuaes que tanto exaltam o cargo do padioleiro, cujas funcções vae, cumulativamente, desempenhar.

Observação

O modo de remover os feridos ou enfermos do local onde foram encontrados para a padiola, cujo transporte deve ser executado, variando as manobras, conconforme forem empregados nesse serviço dous ou três ou quatro padioleiros; as manobras para apear os feridos de cavallaria ou para conduzil-os á Cavallo ao Posto de Socorro; o modo de installar os soccoridos na padiola e as precauções a tomar no seu transporte, etc., são assumptos que ficam reservados á instrucção dos padioleiros dadas nos corpos na qual o respectivo medico poderá dar-lhes maior desenvolvimento, habilitando o pessoal para a execução desse serviço.

As noções technicas ministrada na instrucção aos padioleiros são semelhantes em todos os exércitos e o respectivo programma é quase sempre modelado pelo da Prussia, que versa especialmente sobre os pontos seguintes:

Primeiro – Organisação e estructura geraes do corpo humano. Situação dos differentes órgãos. Trajecto das principais artérias.

Segundo – Principaes lesões traumáticas que se encontra no campo de batalha, accidentes mais frequentes e perigosos destas lesões e que exigem soccorros immediatos. Indicação dos signaes da morte apparente.

Terceiro – Meios fácceis de reconhecer as contusões, fracturas simples e complicadas, luxações e as diferentes especies de feridas nas diversas partes do corpo. Phenomenos que as acomapanham.

Quarto – Material para curativo. Indicações dos apparelhos que se deve empregar nos differentes casos, para os primeiros soccorros no campo de batalha.

Quinto – Os trabalhos praticos, mais importantes, cujos exercícios devem ser dados aos padioleiros, são:

  1. B) Curativo simples das feridas nas diversas partes do corpo, meios de contenção das fracturas.
  2. C) Retirada dos feridos do campo de batalha; precauções que se devo tomar nos ferimentos graves. Auxilio aos feridos que se podem transportar aos Postos de Soccorros. Os melhores meios de transporte dos feridos, a braço e em padiolas. Modo de accommodar os feridos para o seu transporte, nos casos de ferimentos da cabeça, tronco ou extremidades. Installação dos feridos nas padiolas de roda, cacolets, liteiras, etc. Cuidados a ter nestas circumstancias. Cuidados a tomar durante o transporte. Desembarque e transporte dos feridos a seus destinos. Formações militares etc.

Pacote de curativo individual – Consta geralmente de uma pelota de estopa, uma compressa de gaze, uma atadura de algodão, todas bichloruradas, um pedaço de tecido impermeável e dous alfinetes de segurança. É tal a sua importancia nos combates que, sua applicação bem feita, é a causa muitas vezes da salvação de um ferido.

O illustrado medico militar do nosso Exercito, general de brigada graduado dr. Affonso Faustino – na traducção de um artigo, publicado no Boletim Mensal do Estado Maior do Exercito Nacional, relativamente a serviço de saúde em campanha, faz resaltar a importância do pacote de curativo individual, cujos beneficios ficaram em destaque notável na recente guerra dos Balkans. E, diz elle – certamente é consolador saber que, graças a este pequeno pacote de curativo o ao methodo de abstenção adoptado pelos médicos militares francezes, o numero das complicações infecciosas graves e das consequencias más das feridas ficou reduzido além de toda a espectativa.

Diz mais – que o professor dr. Montprolit observou, pela acção do curativo individual com ou sem applicação iodada, a cura por primeira intenção das peiores feridas (feridas transversas dos membros, peito abdômen e do craneo).

18 01 1914 - Manobras da BM - Sv Saúde B

18 01 1914 - Manobras da BM - Sv Saúde E

(Continua)

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 041, de 18/02/1914, página 5 – *mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Instruções para o Serviço de Padioleiros – Parte I

A Federação, no dia 15 de fevereiro de 1914, domingo, noticiava:

BRIGADA MILITAR

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte I

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

PREFACIO

Quem primeiro teve a honra de pensar na formação de um corpo de padioleiros foi o dr. Percy, um dos veteranos da cirurgia militar francesa, tendo seu util projecto um começo apenas de execução em sua pátria.

Outros países, pelo contrario, adoptaram logo sua feliz idéa e organizaram essa excellente e util formação militar, á qual deram um cunho de perfeição igual ao de outros serviços technicos, depois de haverem obtido na experiencia uma completa e cabal demonstração de suas vantagens.

Ha muito tempo que todos os exércitos de paizes adeantados possuem o serviço de padioleiros perfeitamente constituído; o da França só o teve mais tarde, em 1879, graças ao general Gresley, seu ministro da guerra nesse tempo, que determinou sua creação.

Os dados historicos supra-citados foram referidos pelo dr. E. Delorme, distincto professor da Escola de Applicação de Medicina Militar de Val-de-Grace, a quem deve bellas licções a technica desse ramo de serviço sanitario; elle salienta suas vantagens militares e humanitarias, na guerra, com exultação patriótica digna de louvor.

Entre ellas, destaca-se as seguintes

1ª – O serviço especial de padioleiros evita a pratica antiga de serem os feridos e doentes retirados do combate pelos próprios camaradas combatentes, o que tinha o grande inconveniente de desfalcar a tropa de seus elementos essenciaes de acção, por tempo indeterminado e ás vezes longo.

2ª – A perspectiva em que se acha o combatente de receber, quando ferido, um soccorro prompto e seguro, prestado por profissionaes competentemente habilitados, capazes de não deixal-o exposto a novo ferimento ou á morte, augmenta poderosamente sua coragem o da-lhe maior fimesa na lucta.

3ª – Finalmente, os preciosos resultados práticos, que emanam dos meios de transporte adequados e primeiros cuidados – tudo feito por pessoal competente e préviamente exercitado na technica respectiva – são evidentes e salvam innumeras vidas de servidores da Pátria, evitando mesmo a aggravação de muitos feridos, bem assim o conjunto de dores e sofrimentos horriveis, tão communs, quando o soccorro e transporte são ministrados por pessoal sem pratica.

Como se vê, é de incontestável utilidade na guerra o serviço de padioleiros bem organizado; além do seu elevado alcance moral, inspirando ao combatente a salutar confiança na solicitude e dedicação dos primeiros cuidados e curativos, traz sempre real vantagem no tratamento dos feridos, por isso que contribue, pelo transporte cuidadosamente feito e pelos primeiros soccorros intelligentemente executados, para a obtenção de bons resultados cirúrgicos, que muitas vezes disto só dependem.

O padioleiro, habilmente instruído nos misteres de sua nobre e siympathica missão, é mesmo um precioso auxiliar do medico, facilitando-lhe a acção e substituindo-o em muitas emergencias em que tiram todas as vantagens de sua iniciativa, quando bem ponderada e criteriosa.

Sendo o presente regulamento uma coordenação de regras e preceitos relativos a um serviço technico de saúde, é claro que os defeitos e lacunas, que porventura contenha, poderão ser melhor observados na sua applicação pratica, dando lograr a modificações opportunas.

Dr. Armando Bello Barbedo
Capitão Medico

Preliminares

Padioleiros – são praças destinadas especialmente a recolher e retirar do campo de combate os enfermos e os feridos, prestando-lhes os primeiros soccorros e curativos. Portanto, devem ser inteligentes, dedicados, caritativos e pacientes, além de robustos e ágeis, possuindo coragem passiva em alto grau e perfeita disciplina, visto terem de operar por si, independentemente das vistas de seus superiores.

O Padioleiro – deve conhecer perfeitamente a appIicação technica dos soccorros de urgência medico-cirurgicos, sabendo tirar vantagens dos meios improvisados, utilisando-se das peças de fardamento, armamento e equipamento. Tendo os padioleiros a nobre missão de retirar os feridos ou enfermos da linha de fogo, afrontando-a com presença de espírito e coragem, para condusil-os ao respectivo Posto de Soccorro, que deve estar installado ao abrigo das balas, é conveniente que o serviço de transporte seja feito pelo menor numero possível de padioleiros, em cada avanço para o campo de acção, sempre alternadamente, procurando abrigar-se do fogo inimigo, escondendo-se em obstaculos encontrados no caminho e nas irregularidades do terreno, bem assim procurando occultar do inimigo qualquer utensílio que possa chamar-lhe a attenção para as pontarias.

É também de vantagem não avançar para a linha de fogo, quando elle fôr intenso, e sim approveitar as suas interrupções, as mudanças de direcção, recuos e avanços da linha de atiradores, não perdendo ensejo para colher os feridos ou os enfermos, fugindo sempre das
zonas perigosas.

Dado o caso de serem os padioleiros obrigados a parar com os socorridos no trajecto para o Posto, devem procurar brigar-se e aproveitar, o tempo de parada prestando ahi mesmo os socorros de urgência a seu alcance, deixando-os em lugar seguro e voltando a conduzir outros feridos ou enfermos. Quando trabalharem á noute e defronte das posições inimigas, devem limitar-se ao uso cuidadoso de suas lanternas e nunca accender phosphoros, nem fumar, para não serem descobertos pelo inimigo.

Esse serviço será mais perfeito, com o uso da lanterna do dr. Barthier e professor Gossart, da Faculdade de Sciencias de Bordeaux, a qual tem o fóco luminoso invisivel para o inimigo, não podendo, assim, servir-lhe de alvo o padioleiro que a conduzir. Foi Ella  experimentada com o melhor exito em 1906, nas manobras do serviço de saúde de Toulouse e em 1907 nas do serviço de saúde de Bordeaux.

As regras acima são dispensáveis toda a vez que o serviço de padioleiros seja executado durante os armistícios.

O serviço de padioleiros de toda a Brigada Militar será feito pelos músicos de cada corpo, substituídos ou auxiliados, quando necessário, pelos enfermeiros ou ainda, de accordo com as neccessidades de occasião, por praças arregimentadas, escolhidas, de preferência entre as que já tenham pertencido ao serviço de saúde ou possuam os predicados acima referidos. A direcção geral do serviço compete ao official de saúde chefe em serviço.

N’um batalhão, operando isolado, o serviço de padioleiro será feito pela respectiva secção, que installará o seu Posto de Socorro. (Na Russia, os Postos de Soccorros, durante a guerra com o Japão, eram installados á distancia de dous mil metros da linha de fogo, como refere Follenfant, distância que julgo mais garantidora do que a commumente adoptada.

O 1º e 2º regimentos de cavallaria, por não terem actualmente bandas de musica, darão quatro praças idôneas, por esquadrão, a fim de receberem, no respectivo quartel, a instrucção de padioleiros, que os habilitará a prestar auxilio nesse serviço, nas formaturas geraes, quando for necessário e possível.

No systema prussiano e russo é isto applicado a todos os corpos, além de existir o quadro especial do serviço de padioleiros.

Os recrutas receberão no respectivo depósito a instrucção de padioleiros, ficando assim habilitados, para quando forem arregimentados.

O medico do deposito de recrutas enviará, trimestralmente, ao major chefe do serviço sanitário, uma relação nominal dos recrutas que tenham mostrado melhor aptidão para o serviço de padioleiros, a fim de, nos casos especiaes, mais facilmente serem escolhidos para esse serviço.

O mesmo requisitará, pelos meios legaes, o numero de padiolas indispensavel para a instrucção, de accôrdo com o pessoal existente.

Os padioleiros de cada corpo formarão a sua secção de padioleiros e o serviço geral de padioleiros da Brigada fica constituído por essas secções.

As padiolas são conduzidas em um carro especial, sob a guarda do respectivo conductor, que fará parte da secção de conductores.

A banda de música, quando apresentada para o serviço de padioleiros, não levará consigo o seu instrumental e estará desarmada.

A instrucção de padioleiros será dada em cada corpo pelo respectivo medico, no mínimo uma vez por mez e constará de ensino theorico e exercícios práticos. A essa instrucção assistirá o ajudante do corpo.

Os padioleiros, que em campanha, quer em manobras, terão o distinctivo de uma faixa branca, de linho, com 10 centimetros de largura, tendo no centro uma cruz vermelha, de panno garauce. Esta faixa será presa com alfinetes de segurança, em acto de serviço, na parte media do braço esquerdo, ficando a cruz voltada para o mesmo lado e tendo os extremos unidos por dous colchetes de pressão. Os officiaes usarão uma faixa idêntica e no mesmo braço, porém de flanella branca.

A conservação do material destinado ao serviço de padioleiros (bolsas, mantarias, padiolas, cantis, pacotes de curativos individuaes, pelota de Esmarch, lanternas, bussola, etc.) fica sob as vistas dos ajudantes dos corpos ou do alferes inspector da musica no que se referir à Banda da Brigada, os quaes providenciarão sobre os reparos necessários, mediante ordem da autoridade superior a quem darão parte, por escripto, das occurrencias nesse sentido.

Quanto á quantidade do referido material para o funccionamento regular desse ramo do serviço de saúde, deve ficar no critério do coronel Commandante Geral da Brigada, de accôrdo com a indicação major chefe do serviço sanitário, tendo em vista as peças sobrecelentes que, porventura, seja conveniente conservar em deposito.

Deve possuir cada corpo quatro padiolas (uma por companhia ou esquadrão), numero esse indispensável para a instrucção.

Quando formadas mais de uma secção, ou todas, o commando dellas será dado ao sargento de saúde mais antigo que se achar na formatura, o qual distribuirá o pessoal, conforme as ordens emanadas do respectivo official de saúde, em serviço.

A padiola, conduzindo ferido ou enfermo, será levada por dous padioleiros, quando a distancia a percorrer for pequena, em terreno plano e sem obstáculos a vencer; no caso contrario, a conduzirão os quatro padioleiros que a guarnecem.

(Continua)

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 039, de 15/02/1914, página 7 – *mantida a grafia da época