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A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Instruções para o Serviço de Padioleiros – Parte V

 A Federação, no dia 27 de fevereiro de 1914, sexta-feira, noticiava:

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte V

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

Á vóz – abrir fileiras – os padioleiros números 2 e 4 (cerra-fila) darão três passos á rectaguarda, ou, havendo obstáculo ahi, os numeros 1 e o 8 (chefes de filas) farão o mesmo para a frente. O sargento passará, então, revista, verificando se o material está em ordem, a fim de providenciar.

Á vóz – preparar para armar padioIas – o padioleiro numero 8 faz, por meia volta á direita, frente á retaguarda e entrega a cabeceira da padiola ao padioleiro numero 2, que a segura com a mão esquerda, ficando o numero 3 com a outra extremidade da padiola; o padioleiro numero 1 dá um passo a retaguarda e o numero 4 um passo á frente, mudando ambos a frente para o centro da padiola.

A vóz – armar padiolas – os padioleiros numeros 1 e 4, auxiliados pelos outros dous, começam a armal-a, retirando primeiro os suspensorios que a envolvem e desenrolando-os da esquerda para a direita, collocando-os em seu pescoço; em seguida os números 2 e 8 que seguram as extremidades da padiola, tendo o pé direito para a frente, giram e abrem as hastes da padiola; então os numeros 1 e 4 collocam as travessas, convindo sempre que o numero 1 colloque a travessa dos pés o e números 4 a da cabeceira.

Armada a padiola, os padioleiros numeros 1 e 4 enfiam as alças dos suspensorios nos braços das respectivas padioIas, collocando a parte do centro dos suspensorios sobre a lona da padiola. Isto feito, está a padiola armada e, conforme as necessidades do momento, o sargento de saúde dará a vóz – descançar padiolas – o que será feito do seguinte modo: os padioleiros numeros 2 e 4 depoem a padiola no chão e ficam entre as suas hastes, tomando todos a frente primitiva da formatura. Nesta posição esperam a vóz – a soccorro – a fim de marcharem para os pontos indicados conforme a necessidade da occasião, procedendo da seguinte forma: no grupo que entra em serviço; os padioleiros numeros 2 e 3 seguram e suspendem as hastes da padiola, collocam os suspensorios no pescoço (figura n. 10) e seguem ao destino ordenado pelo sargento de saúde; os números 1 e 4, que sahem conjuntamente com o grupo, decorridos alguns passos de distancia acceleram a sua marcha e chegam primeiro ao local onde se acha a praça que necessita de soccorros, ahi procedem aos necessários e urgentes cuidados, recorrendo de preferencia ao pacote de curativo individual do soccorrido ou de peças de seu fardamento ou equipamento, reservando sempre a carga de suas bolsas sanitarlas; nesse Ínterim, chegam os padioleiros numeros 2 e 3, portadores da padiola, os quaes obedecem a vóz do padioleiro numero 1, que determinará a collocação da padiola á direita ou á esquerda do ferido, conforme a localisação do ferimento.

A padiola será sempre collocada a um passo de distancia do ferido ou doente e paralelamente a elle. Collocado o soccorrido na padiola, esta poderá ser conduzida pelos padioleiros 2 e 3 ou, enitão pelos quatro padioleiros, tendo a vóz de commando o numero 1, que deverá ser o padioleiro de maior aptidão, o qual guiará o grupo a fim de ser feito o transporte em boas condições de estabilidade e accommodação do transportado.

Sempre que a padiola conduzir enfermo ou ferido, convém observar o seguinte: o padioleiro ou os padioleiros que a forem conduzindo na frente devem romper a marcha com o pé esquerdo e os que forem na retaguarda romperão a marcha com o pé direito, o que é de grande vantagem a fim de diminuir o balanço da padiola; o passo deve ser regular, curto e igual, reduzido, mais ou menos, a 2/3 do passo ordinário; todos os padioleiros devem procurar dar á padiola uma marcha regular sem trepidação, para o que convém marchar em cadencia moderada, combinando os passos, evitando saltos, flexionando brandamente, as coxas e os joelhos e pisando com o pé em cheio no cheio no chão; em taes condições o passo póde ser accelerado, quando o estado do soccorrido o permitir, observando-se sempre os preceitos acima referidos. Quando a padiola estiver vasia, o passo deve ser accelerado. Os padioleiros numeros 1 e 4, principalmente quando não vão conduzindo a padiola, devem transportar, quando possivel, as peças de fardamento, equipamento e armamento do soccorrido, que não foram aproveitadas para o soccorro, tendo o cuidado de descarregar o fuzil arrecadando a munição que distribuirão entre os atiradores.

Relativamente ao passo reduzido aos 2/3 do seu comprimento ordinario, Lougmero faz notar que ha sob o ponto de vista dos movimentos de oscillação, diferença notável ente o passo ordinário e o passo reduzido de 1/3. Quando dous padioleiros conduzem uma padiola vazia, dando passos de 30 pollegadas, de calcanhar a calcanhar, o movimento oscillatorio é de 3 ½ pollegadas (8 centímetros); com a padiola carregada e com o mesmo passo, esta oscillação é de 4 ½   pollegadas (11 centimetros). Quando o passo é reduzido a 1/3 (2 pollegadas), a oscillação da padiola vazia é de 1 ½ pollegada e a da padiola carregada é de 2 ¼ polegadas (5 ½ centímetros), portanto, a oscillação fica reduzida á metade da que haveria se o passo fosse ordinário. Chegados á barraca-hospital, o soccorrido será entregue ao enfermeiro mór e nos Postos de Socorros ao cabo de saúde, que darão conhecimento aos médicos de serviço. Em seguida o grupo de padioleiros regressa ao campo de acção, se for preciso, ou irá para o local da formatura receber novas ordens.

Uma vez terminado o serviço, o sargento de saúde, mediante ordem do médico-chefe dará voz – desarmar padiolas – manobra de fácil execução, por isso que é o inverso de armar, sendo os tempos idênticos, porem em sentido contrario.
Feito isto, a guarnição voltará á formatura primitiva, isto é, com a padiola perfilada, etc., e será, finalmente, dada a vóz — recolher padiolas — para cuja execução irá recolhendo cada padioleiro á repartição competente o material que tiver recebido.

OBSERVAÇÃO

Caso tenha havido estrago ou desarranjo na padiola ou em seus accessorios, o padioleiro numero 1 dará disso conhecimento immediato ao sargento de saúde, a fim de dar este parte do occorrido á auctoridade competente. Por essa ocasião, terminado, portanto, o serviço affecto aos padioleiros, o sargento de saúde os conduzirá para seu corpo, salvo se
receber ordem em contrario.

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 048, de 27/02/1914, sexta-feira, página 4 – *mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Instruções para o Serviço de Padioleiros – Parte IV

A Federação, no dia 24 de fevereiro de 1914, terça-feira, noticiava:

Brigada Militar

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte IV

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

Descripção da padiola

Entre os innumeros meios de transportar doentes ou feridos durante o combate (cacoletes, liteiras, ambulâncias de 4 rodas ou omnibus, que podem conduzir até 10 pessoas sentadas, carros ambulancia leves, de 2 rodas, que podem conduzir, até 6 pessoas sentadas, etc.) indubitavelmente a padiola é o mais commodo, tanto para elles como para as praças que os conduzem.

Entretanto apesar do não estarem muito em voga os cacolets e as liteiras, que no exercito francez foram substituídos pelos carrinhos porta-padiolas (brouette porte-brancard), juntei as respectivas estampas para serem conhecidos esses dous meios de conducção de feridos e doentes, que aliás julgo de vantagem quando se opera em terrenos accidentados. Esses meios, pois, têm relativa importancia.

O transporte feito a braços ou sobre os hombros é o menos conveniente, por ser penoso e fatigante. Ha uma grande variedade de typos de padiolas, que differem entre si por pequenas modificações em suas peças accessorias (Franck, Macquet etc).

No Exercito Nacional os modelos mais uzados de padiolas são o de Franck e o de Macquet, modificado por Vidal; este, por ser mais portátil e commodo, será provavelmente adoptado no serviço de padioleiros da Brigada Militar.

Segundo a opinião competente do coronel dr. Antonio Ferrreira do Amaral, Director do Hospital Central do Exercito, as padiolas supracitadas são, no genero, o quo ha de mais expedito e seguro, dando ao doente e aos conductores fácil e commodo transporte e prestam-se para leito dos doentes graves e para mesa de operação.

A padiola Macquet compõe-se de duas hastes, cujos extremos chamam-se braços; são ambas enfiadas em bainhas lateraes feitas em uma lona resistente, que constitue o leito da padiola, tendo na cabeceira uma dobra em forma de bolça, destinada a ser cheia de palha, constituindo assim o travesseiro. Em cada extremidade da padiola, tanto das cabeceiras como dos pés, é collocada uma travessa de madeira, munida de dois orificios, em que são enfiados os braços da padiola, a fim de manter suas hastes afastadas, em posição parallela, dando ao conjuncto a fórma rectangular.

A travessa da cabeceira é enfiada em uma bainha existente na lona (travesseiro); a dos pés é munida de dous outros orifícios, no centro, pelos quaes passam duas correias de couro, fixadas á lona que se estica á vontade, por meio de duas fivelas presas ás correias.

Cada travessa tem em suas extremidades dous pés articulados da padiola, que póde assim ser aproveitada como cama em caso de necessidade.

Tem dous suspensorios de couro, cada um munido de fivéllas em suas extremidades, que servem para ajustar essa peça accessoria ao corpo do padioleiro e para manter, quando desarmada a padiola, o seu enrolamento, a fim de ser conduzida mais facilmente.

 Formatura — Armar e desarmar padiolas

Os padioleiros sob o commando do mestre de musica, 1º sargento de saúde ou do seu substituto legal, o contra-mestre, 2º sargento de saúde, quando requisitados, apresentam-se, na ambulancia ou Barraca-Hospital, ao medico de serviço, e aguardam ordens, a dez passos de distancia da barraca, com o seu pessoal formado em duas fileiras unidas.

— Formações —

Uma vez apresentado, o sargento de saúde espera ordens, que poderão ser, ou a de descanço ou a de preparar-se para armar padiolas e nesse caso o sargento de saúde retira-se incontinentemente e põe o seu pessoal prompto para o serviço, fazendo as seguintes evoluções:
Á vóz de — direita — volver — metter por altura – esquerda — volver; os padioleiros tomam lugares, de sorte que os mais altos occupam a fileira da retaguarda e volvem á frente primitiva. Segue a voz – abrir intervalos para a esquerda,

A esta vóz os padioleiros, a começar da direita, estendem o braço esquerdo até alcançar com a mão o hombro direito do padioleiro que lhe fica á esquerda, fazendo passo lateral à esquerda até ficarem com os intervalos necessários.

Os padioleiros deixam cahir o braço sobre a coxa correspondente. Á voz de enumerar filas, os padioleiros, a começar pela direita, vão numerando-se, de maneira tal que o primeiro padioleiro á direita toma o numero um e o seu cerra-fila o numero dous; o chefe de fila immediato dará o numero três e o seu cerra-fila o numero quatro e assim successivamente vão numerando-se de quatro em quatro, formando desse modo as guarnições correspondentes a cada grupo de padioleiros.

A cada padiola é, portanto, dada uma guarnição de 4 homens (Prussia, Russia, Inglaterra), sendo 2 para a condução do ferido e 2 auxiliares.

Depois de numerados, o sargento de saúde dá a voz – destacar grupos . Os padioleiros números 3 e 4 unem, respectivamente, aos padioleiros números 1 e 2 que lhe ficam á direita, ficando desta sorte um espaço aproximado de dous passos entre os respectivos grupos, que tomam os números primeiro, segundo, terceiro grupo, etc., sempre contando da direita para a esquerda.

Os grupos assim enumerados, em ordem, facilitam o serviço, dando-lhe melhor methodo. Á voz receber padiolas e bolsas sanitárias, os padioleiros numero 3 dão um passo á frente, em seguida o sargento dará a voz á direita (ou á esquerda) marche, conforme o local em que estiver o carro, onde se acham guardadas as padiolas e ahi serão entregues pelo conductor do respectivo carro a cada padioleiro uma padiola, que elle conduzirá em posição horizontal, sob o braço direito, devendo os padioleiros guardar entre si, tanto na ida como na volta, os seus intervallos. Em seguida à partida dos padioleiros numeros 3, o sargento de saúde dará a voz á direita (ou á esquerda) marche aos padioleiros números 1, que saem de forma e vão á Barraca-Hospital, onde cada um receberá quatro cantis para o respectivo grupo e duas bolsas sanitárias que ficarão consigo. Recebidos os objectos, os dois chefes de fila de cada grupo entrarão novamente em forma, depois de distribuir os cantis, mantendo os padioleiros numero 3 a padiola perfilada no braço esquerdo, com a cabeceira voltada para cima. Os braços da padiola e a cabeceira serão pintados de cor differente da do restante.

(Continua)

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 046, de 24/02/1914, página 3 – *mantida a grafia da época

24 02 1914 - INSTRUÇÕES PARA O SV DE PADIOLEIROS IV G

24 02 1914 - INSTRUÇÕES PARA O SV DE PADIOLEIROS IV E

24 02 1914 - INSTRUÇÕES PARA O SV DE PADIOLEIROS IV F

 

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Instruções para o serviço de Padioleiros – Parte III

A Federação, no dia 20 de fevereiro de 1914, sexta-feira, noticiava:

BRIGADA MILITAR

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte III

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

Meios improvisados de transporte de feridos ou doentes

Para o transporte de feridos e doentes nos combates ou manobras há, além dos meiois technicos adequados a esse serviço os meios improvisandos ou de occasião, que são de transporte a braço e em padiolas improvisadas, por meio de varas, cordas, saccos, peças de fardamento, equipamento, armamento, etc. Sabe-se que nem sempre a intensidade do fogo nos combates e a situação dos combatentes entre si permittem a retirada immediata dos feridos e doentes cujas vidas ficam assim em maior perigo; em outros casos, os accidentes do sólo concorrem para difficultar o transporte e ás vezes, a propria natureza do ferimento o impossível pelos meiois de occasião, não podendo assim esses infelizes feridos receber um primeiro soccorro indispensável. Entretanto um transporte improvisado com arte e um primeiro soccorro aplicado com habilidade, transforma ferimentos graves em leves accidentes, dando logar, ás vezes, a salvar muitos soldados da imminencia da morte.

Os accidentes do terreno, ou obstáculos por ventura ahi encontrados ou ainda a falta da padiola impõem, ás vezes, o transporte dos feridos a braço e em grandes distancias, o que o torna penoso.

Vê-se desde logo que o transporte a braço por um só padioleiro, aliás de uso frequente só pode ser feito por um homem vigoroso e tendo de percorrer pequenas distancias. Ha dous modos de conduzir assim um ferido, cujos processos se acham claramente descriptos na lnstrucção de Padioleiros, em manobras e em campanha, em vigor, actualmente no Exercito Nacional.

Estas instrucções a elles se reportando, adoptarão o methodo seguido na Escola de Enfermeiros e de Padioleiros Militares do Serviço de Saúde do Exercito Francez, considerado um bom manual technico desse ramo de serviço militar.

1º processo – transporte ás costas – O padioleiro põe o joelho em terra diante do ferido e de maneira a dar-lhe as costas.

O ferido passa-lhe os braços em torno do pescoço e o padioleiro, segurando-o pelas curvas das pernas, iça-o ás costas e levanta-se. Para facilitar o movimento de levantar poderá o padioleiro procurar um ponto de apoio na frente e ajudar-se com um bastão ou com o próprio fuzil.

2º processo – transporte a braço – O padioleiro, collocado junto do ferido põe o joelho em terra e passa lhe o braço sob os rins e as nadegasa; o ferido, por seu turno, passa os braços em redor do pescoço do padioleiro, se levanta, firmando-se na perna não flexionada.

Observação – O transporte ás costas é preferível ao transporte a braço, mas é preciso que o doente possa auxiliar o padioleiro e tenha forças pura bem firmar-se no pescoço do mesmo.

No transporte a braço por dous padioleiros, o ferido póde ser transportado em duas posições: sentado ou deitado.

1º methodo – sentado – Dois processos pódem ser empregados: a duas ou a quatro mãos,

1º processo – transporte a duas mãos – Os padioleiros põem o joelho em terra, ao lado do ferido, que é collocado de cócoras.

Unem primeiro as mãos que estiverem dirigidas para os pés do ferido e passam-nas por baixo das nadegas; em seguida cruzam as outras duas por sobre o dorso do mesmo, que passa os braços em torno do pescoço dos padioleiroa, se puder, e apenas um, quando for o ferimento situado num dos membros superiores.

Á voz – Sentido – Levantar – os padioleiros se levantam.

Á vóz – Em frente – Marche – o da direita rompe a marcha com o pé direito e o da esquerda com o esquerdo.

2º processo – transporte á quatro mãos – Si o ferido tiver forças para auxiliar-se e puder servir-se dos braços, farão os padioleiros uma cadeirinha com as mãos, o que permittirá um transporte mais commodo.

Os padioleiros, collocados ao lado do ferido, põem o joelho em terra, e cada um segura o seu punho esquerdo com a mão direita e depois, com a mão livre, segura o punho livre que o companheiro lhe apresenta.

Assim formada a cadeirinha, o ferido procura sentar-se pelo modo mais fácil, passando os braços em torno dos pescoços dos padioleiros ou por baixo dos braços.

Á vóz – sentido – Levantar – os padioleiros levantam-se.

Este modo de transporte é não somente mais commodo para o ferido do que o transporte a duas mãos, como também menos fatigante para os padioleiros, que poderão assim vencer maiores distancias com esforço menor.

Observação – Póde-se substituir as mãos por um anel de corda ou de palha trançada, ou ainda por um pedaço de panno rectangular, cujas extremidades são cosidas em redor cylindros de madeira.

Os padioleiros que com uma das mãos livres, della se servem para sustentar o dorso do ferido.

2º methodo – Posição deitada – Tres processos podem ser empregados:

1º processo – Os padioleiros são collocados um de cada lado do ferido.

2º processo – Os padioleiros são collocados ambos do mesmo lado do ferido .

3º processo – O ferido é mantido pelas extremidades.

Os padioleiros collocam-se da seguinte forma: o n.1 entre as pernas do ferido, o n. 2 por traz da cabeça. Tendo posto um joelho em terra, o n. 2 levanta a cabeça do ferido, que aplicca contra seu próprio peito, passa os braços de traz para deante por baixo dos braços do mesmo, cruzando as mãos por diante do peito.

O n. 1 pende o corpo para a frente, voltando as costas ao ferido e ao padioleiro n. 2 , que segura-lhe as pernas, passando as mãos de fora para dentro pelas curvas.

Á vóz – Sentido – Levantar – os dois padioleiros se levantam.

Á vóz – Em frente – Marche – rompe a marcha com o mesmo pé.

(Continua)

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 043, de 20/02/1914, página 6 – *mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO – Instruções para o Serviço de Padioleiros – Parte II

A Federação, no dia 18 de fevereiro de 1914, quarta-feira, noticiava:

BRIGADA MILITAR

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte II

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

Preliminares

Durante a conducção dos soccorridos, qualquer que seja a topographia do terreno, deve-se dar á padiola, sempre que fôr possível, posição horizontal, aprendendo préviamente os padioleiros com o respectivo instructor as regras a observar na transposição de obstáculos, na uniformidade do passo, na passagem de um fosso, etc. (manobras muito bem ensinadas e postas em pratica por M. Cesary, um dos chefes da Escola de Applicação de Medicina Militar de Val-de-Grace).

Nas subidas e descidas muito ingremes, deve-se ter o cuidado de conservar sempre em posição mais alta a cabeceira, flexionando ou alongando para isso os braços e as pernas.

Quanto ao tempo necessario para transportar um ferido ou doente do campo de batalha ou de manobras ao Posto de Soccoros, conforme experiencias de Longmore a esse respeito, está calculado que são necessários, na média, numa distância de 1.200 a 1.800 metros, em terreno plano, 26 minutos; levando mais 18 para o regresso, o trajecto completo da padiola gastará, pois, 44 minutos. Accrescentando-ae a esse tempo mais 12 minutos, para dar ao ferido ou enfermo os soccorros imediatos e imprescindiveis, conclue-se que são precisos 60 minutos ou uma hora para vir uma padiola, transportando um ferido ou enfermo do campo ao Posto de Soccorro e voltar vasia ao ponto de onde partiu. Vê-se pelo exposto que, uma guarnição de quatro homens não poderá transportar, durante um dia, mais de doze a quinze feridos, dado que faz ver que é bastante insuficiente este modo de transporte, desde que haja numero considerável de feridos ou doentes; mas, deve-se ter em conta que muitos destes podem por si transportar-se, sem serem carregados por padioleiros; resulta, pois, o quanto é importante não perder tempo e andar nesse serviço com muita actividade, especialmente havendo affluencia de feridos.

Em regra geral, devem ser transportados em primeiro logar os feridos com hemorrhagias graves e os que forem atingidos por ferimentos da cabeça, pescoço, tronco ou membros inferiores.

Nas considerações acima não levamos em conta o tempo variável que pode ser gasto na exploração do campo de combate, feita pelos padioleiros na procura de feridos que podem se achar nos logares onde foram feridos ou em outros pontos, a que foram ter por instincto de conservação própria, procurando occultar-se em obstáculos naturaes, depressões do terreno, casa, material bellico, etc., conforme a situação dos combatentes. O tempo desse serviço ainda pode variar, uma vez que seja feito á noute, attentas ás dificuldades produzidas pela escuridão, apezar dos recursos da luz artificial, algumas vezes de uso difficil e inconveniente.

Na guerra russo-japonesa, refere Matignon, os japoneses supprimiram os meios de illuminação, por despertarem a attenção do inimigo.

Para auxiliar ou facilitar a procura dos feridos é habitual o uso de gritos repetidos, e com intervallos regulares para se fazerem entender e chamar os padioleiros; M. de Beaufort teve a idea de munir cada soldado de um apito, por meio do qual poderia pedir soccorro em caso de achar-se o ferido no campo, em estado de não poder andar, nem fallar. Matignon imaginou adaptar um apito na placa de identidade, usado em alguns exércitos.

Na busca de feridos ou doentes, podem ser empregados os cães sanitários, que bons serviços prestam.

O major médico dr. Bichelonne e o capitão Tollet citam preciosos serviços prestados pelo cão sanitario, em varias guerras, o qual tem sido introduzido em muitos exércitos, onde recebe a competente instrução e faz bellos exercicios.

A França, Belgica, Hollanda, Suecia, Italia, Allemanha, etc. possuem seus cães sanitários já experimentados com excellentes resultados nas guerras anglo-boer e russo-japoneza, segundo escreveu o dr. Berthier, em 1910. Vem a propósito lembrar que nas batalhas prolongadas ou em que o serviço de remoção de feridos e doentes seja interrompido por haver fogo muito intenso e continuado, será de vantagem que os padioleiros conduzam comsigo embornaes com um pequeno farnel (pão, biscoutos, bolachas, etc.) a fim de levantar as forças dos feridos que porventura não tenham se alimentado por muitas horas e se achem transidos de fome ou muito enfraquecidos.

Todo o material de serviço affecto ás secções de padioleiros terá pintado, emlogar conveniente, uma cruz vermelha, com dimensões proporcionaes. Cada carro ambulância terá, além disso preso em pequena haste, no flanco esquerdo da boleia, um galhardete de flanela branca contendo no centro o mesmo symbolo.

Como se vê pelo exposto, não possuindo a Brigada, de accôrdo com sua organização, um corpo especial de padioleiros, ficou o pessoal desse serviço constituído pelo das musicas. Dessa dependencia decorre que não pode haver apurado rigor na exigência dos predicados indispensáveis ao padioleiro. O pessoal desse serviço, vindo da musica para a qual entrou directamente, isto é, com deveres muito diversos, nem sempre poderá reunir em si as condições physicas, Moraes e intellectuaes que tanto exaltam o cargo do padioleiro, cujas funcções vae, cumulativamente, desempenhar.

Observação

O modo de remover os feridos ou enfermos do local onde foram encontrados para a padiola, cujo transporte deve ser executado, variando as manobras, conconforme forem empregados nesse serviço dous ou três ou quatro padioleiros; as manobras para apear os feridos de cavallaria ou para conduzil-os á Cavallo ao Posto de Socorro; o modo de installar os soccoridos na padiola e as precauções a tomar no seu transporte, etc., são assumptos que ficam reservados á instrucção dos padioleiros dadas nos corpos na qual o respectivo medico poderá dar-lhes maior desenvolvimento, habilitando o pessoal para a execução desse serviço.

As noções technicas ministrada na instrucção aos padioleiros são semelhantes em todos os exércitos e o respectivo programma é quase sempre modelado pelo da Prussia, que versa especialmente sobre os pontos seguintes:

Primeiro – Organisação e estructura geraes do corpo humano. Situação dos differentes órgãos. Trajecto das principais artérias.

Segundo – Principaes lesões traumáticas que se encontra no campo de batalha, accidentes mais frequentes e perigosos destas lesões e que exigem soccorros immediatos. Indicação dos signaes da morte apparente.

Terceiro – Meios fácceis de reconhecer as contusões, fracturas simples e complicadas, luxações e as diferentes especies de feridas nas diversas partes do corpo. Phenomenos que as acomapanham.

Quarto – Material para curativo. Indicações dos apparelhos que se deve empregar nos differentes casos, para os primeiros soccorros no campo de batalha.

Quinto – Os trabalhos praticos, mais importantes, cujos exercícios devem ser dados aos padioleiros, são:

  1. B) Curativo simples das feridas nas diversas partes do corpo, meios de contenção das fracturas.
  2. C) Retirada dos feridos do campo de batalha; precauções que se devo tomar nos ferimentos graves. Auxilio aos feridos que se podem transportar aos Postos de Soccorros. Os melhores meios de transporte dos feridos, a braço e em padiolas. Modo de accommodar os feridos para o seu transporte, nos casos de ferimentos da cabeça, tronco ou extremidades. Installação dos feridos nas padiolas de roda, cacolets, liteiras, etc. Cuidados a ter nestas circumstancias. Cuidados a tomar durante o transporte. Desembarque e transporte dos feridos a seus destinos. Formações militares etc.

Pacote de curativo individual – Consta geralmente de uma pelota de estopa, uma compressa de gaze, uma atadura de algodão, todas bichloruradas, um pedaço de tecido impermeável e dous alfinetes de segurança. É tal a sua importancia nos combates que, sua applicação bem feita, é a causa muitas vezes da salvação de um ferido.

O illustrado medico militar do nosso Exercito, general de brigada graduado dr. Affonso Faustino – na traducção de um artigo, publicado no Boletim Mensal do Estado Maior do Exercito Nacional, relativamente a serviço de saúde em campanha, faz resaltar a importância do pacote de curativo individual, cujos beneficios ficaram em destaque notável na recente guerra dos Balkans. E, diz elle – certamente é consolador saber que, graças a este pequeno pacote de curativo o ao methodo de abstenção adoptado pelos médicos militares francezes, o numero das complicações infecciosas graves e das consequencias más das feridas ficou reduzido além de toda a espectativa.

Diz mais – que o professor dr. Montprolit observou, pela acção do curativo individual com ou sem applicação iodada, a cura por primeira intenção das peiores feridas (feridas transversas dos membros, peito abdômen e do craneo).

18 01 1914 - Manobras da BM - Sv Saúde B

18 01 1914 - Manobras da BM - Sv Saúde E

(Continua)

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 041, de 18/02/1914, página 5 – *mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Instruções para o Serviço de Padioleiros – Parte I

A Federação, no dia 15 de fevereiro de 1914, domingo, noticiava:

BRIGADA MILITAR

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte I

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

PREFACIO

Quem primeiro teve a honra de pensar na formação de um corpo de padioleiros foi o dr. Percy, um dos veteranos da cirurgia militar francesa, tendo seu util projecto um começo apenas de execução em sua pátria.

Outros países, pelo contrario, adoptaram logo sua feliz idéa e organizaram essa excellente e util formação militar, á qual deram um cunho de perfeição igual ao de outros serviços technicos, depois de haverem obtido na experiencia uma completa e cabal demonstração de suas vantagens.

Ha muito tempo que todos os exércitos de paizes adeantados possuem o serviço de padioleiros perfeitamente constituído; o da França só o teve mais tarde, em 1879, graças ao general Gresley, seu ministro da guerra nesse tempo, que determinou sua creação.

Os dados historicos supra-citados foram referidos pelo dr. E. Delorme, distincto professor da Escola de Applicação de Medicina Militar de Val-de-Grace, a quem deve bellas licções a technica desse ramo de serviço sanitario; elle salienta suas vantagens militares e humanitarias, na guerra, com exultação patriótica digna de louvor.

Entre ellas, destaca-se as seguintes

1ª – O serviço especial de padioleiros evita a pratica antiga de serem os feridos e doentes retirados do combate pelos próprios camaradas combatentes, o que tinha o grande inconveniente de desfalcar a tropa de seus elementos essenciaes de acção, por tempo indeterminado e ás vezes longo.

2ª – A perspectiva em que se acha o combatente de receber, quando ferido, um soccorro prompto e seguro, prestado por profissionaes competentemente habilitados, capazes de não deixal-o exposto a novo ferimento ou á morte, augmenta poderosamente sua coragem o da-lhe maior fimesa na lucta.

3ª – Finalmente, os preciosos resultados práticos, que emanam dos meios de transporte adequados e primeiros cuidados – tudo feito por pessoal competente e préviamente exercitado na technica respectiva – são evidentes e salvam innumeras vidas de servidores da Pátria, evitando mesmo a aggravação de muitos feridos, bem assim o conjunto de dores e sofrimentos horriveis, tão communs, quando o soccorro e transporte são ministrados por pessoal sem pratica.

Como se vê, é de incontestável utilidade na guerra o serviço de padioleiros bem organizado; além do seu elevado alcance moral, inspirando ao combatente a salutar confiança na solicitude e dedicação dos primeiros cuidados e curativos, traz sempre real vantagem no tratamento dos feridos, por isso que contribue, pelo transporte cuidadosamente feito e pelos primeiros soccorros intelligentemente executados, para a obtenção de bons resultados cirúrgicos, que muitas vezes disto só dependem.

O padioleiro, habilmente instruído nos misteres de sua nobre e siympathica missão, é mesmo um precioso auxiliar do medico, facilitando-lhe a acção e substituindo-o em muitas emergencias em que tiram todas as vantagens de sua iniciativa, quando bem ponderada e criteriosa.

Sendo o presente regulamento uma coordenação de regras e preceitos relativos a um serviço technico de saúde, é claro que os defeitos e lacunas, que porventura contenha, poderão ser melhor observados na sua applicação pratica, dando lograr a modificações opportunas.

Dr. Armando Bello Barbedo
Capitão Medico

Preliminares

Padioleiros – são praças destinadas especialmente a recolher e retirar do campo de combate os enfermos e os feridos, prestando-lhes os primeiros soccorros e curativos. Portanto, devem ser inteligentes, dedicados, caritativos e pacientes, além de robustos e ágeis, possuindo coragem passiva em alto grau e perfeita disciplina, visto terem de operar por si, independentemente das vistas de seus superiores.

O Padioleiro – deve conhecer perfeitamente a appIicação technica dos soccorros de urgência medico-cirurgicos, sabendo tirar vantagens dos meios improvisados, utilisando-se das peças de fardamento, armamento e equipamento. Tendo os padioleiros a nobre missão de retirar os feridos ou enfermos da linha de fogo, afrontando-a com presença de espírito e coragem, para condusil-os ao respectivo Posto de Soccorro, que deve estar installado ao abrigo das balas, é conveniente que o serviço de transporte seja feito pelo menor numero possível de padioleiros, em cada avanço para o campo de acção, sempre alternadamente, procurando abrigar-se do fogo inimigo, escondendo-se em obstaculos encontrados no caminho e nas irregularidades do terreno, bem assim procurando occultar do inimigo qualquer utensílio que possa chamar-lhe a attenção para as pontarias.

É também de vantagem não avançar para a linha de fogo, quando elle fôr intenso, e sim approveitar as suas interrupções, as mudanças de direcção, recuos e avanços da linha de atiradores, não perdendo ensejo para colher os feridos ou os enfermos, fugindo sempre das
zonas perigosas.

Dado o caso de serem os padioleiros obrigados a parar com os socorridos no trajecto para o Posto, devem procurar brigar-se e aproveitar, o tempo de parada prestando ahi mesmo os socorros de urgência a seu alcance, deixando-os em lugar seguro e voltando a conduzir outros feridos ou enfermos. Quando trabalharem á noute e defronte das posições inimigas, devem limitar-se ao uso cuidadoso de suas lanternas e nunca accender phosphoros, nem fumar, para não serem descobertos pelo inimigo.

Esse serviço será mais perfeito, com o uso da lanterna do dr. Barthier e professor Gossart, da Faculdade de Sciencias de Bordeaux, a qual tem o fóco luminoso invisivel para o inimigo, não podendo, assim, servir-lhe de alvo o padioleiro que a conduzir. Foi Ella  experimentada com o melhor exito em 1906, nas manobras do serviço de saúde de Toulouse e em 1907 nas do serviço de saúde de Bordeaux.

As regras acima são dispensáveis toda a vez que o serviço de padioleiros seja executado durante os armistícios.

O serviço de padioleiros de toda a Brigada Militar será feito pelos músicos de cada corpo, substituídos ou auxiliados, quando necessário, pelos enfermeiros ou ainda, de accordo com as neccessidades de occasião, por praças arregimentadas, escolhidas, de preferência entre as que já tenham pertencido ao serviço de saúde ou possuam os predicados acima referidos. A direcção geral do serviço compete ao official de saúde chefe em serviço.

N’um batalhão, operando isolado, o serviço de padioleiro será feito pela respectiva secção, que installará o seu Posto de Socorro. (Na Russia, os Postos de Soccorros, durante a guerra com o Japão, eram installados á distancia de dous mil metros da linha de fogo, como refere Follenfant, distância que julgo mais garantidora do que a commumente adoptada.

O 1º e 2º regimentos de cavallaria, por não terem actualmente bandas de musica, darão quatro praças idôneas, por esquadrão, a fim de receberem, no respectivo quartel, a instrucção de padioleiros, que os habilitará a prestar auxilio nesse serviço, nas formaturas geraes, quando for necessário e possível.

No systema prussiano e russo é isto applicado a todos os corpos, além de existir o quadro especial do serviço de padioleiros.

Os recrutas receberão no respectivo depósito a instrucção de padioleiros, ficando assim habilitados, para quando forem arregimentados.

O medico do deposito de recrutas enviará, trimestralmente, ao major chefe do serviço sanitário, uma relação nominal dos recrutas que tenham mostrado melhor aptidão para o serviço de padioleiros, a fim de, nos casos especiaes, mais facilmente serem escolhidos para esse serviço.

O mesmo requisitará, pelos meios legaes, o numero de padiolas indispensavel para a instrucção, de accôrdo com o pessoal existente.

Os padioleiros de cada corpo formarão a sua secção de padioleiros e o serviço geral de padioleiros da Brigada fica constituído por essas secções.

As padiolas são conduzidas em um carro especial, sob a guarda do respectivo conductor, que fará parte da secção de conductores.

A banda de música, quando apresentada para o serviço de padioleiros, não levará consigo o seu instrumental e estará desarmada.

A instrucção de padioleiros será dada em cada corpo pelo respectivo medico, no mínimo uma vez por mez e constará de ensino theorico e exercícios práticos. A essa instrucção assistirá o ajudante do corpo.

Os padioleiros, que em campanha, quer em manobras, terão o distinctivo de uma faixa branca, de linho, com 10 centimetros de largura, tendo no centro uma cruz vermelha, de panno garauce. Esta faixa será presa com alfinetes de segurança, em acto de serviço, na parte media do braço esquerdo, ficando a cruz voltada para o mesmo lado e tendo os extremos unidos por dous colchetes de pressão. Os officiaes usarão uma faixa idêntica e no mesmo braço, porém de flanella branca.

A conservação do material destinado ao serviço de padioleiros (bolsas, mantarias, padiolas, cantis, pacotes de curativos individuaes, pelota de Esmarch, lanternas, bussola, etc.) fica sob as vistas dos ajudantes dos corpos ou do alferes inspector da musica no que se referir à Banda da Brigada, os quaes providenciarão sobre os reparos necessários, mediante ordem da autoridade superior a quem darão parte, por escripto, das occurrencias nesse sentido.

Quanto á quantidade do referido material para o funccionamento regular desse ramo do serviço de saúde, deve ficar no critério do coronel Commandante Geral da Brigada, de accôrdo com a indicação major chefe do serviço sanitário, tendo em vista as peças sobrecelentes que, porventura, seja conveniente conservar em deposito.

Deve possuir cada corpo quatro padiolas (uma por companhia ou esquadrão), numero esse indispensável para a instrucção.

Quando formadas mais de uma secção, ou todas, o commando dellas será dado ao sargento de saúde mais antigo que se achar na formatura, o qual distribuirá o pessoal, conforme as ordens emanadas do respectivo official de saúde, em serviço.

A padiola, conduzindo ferido ou enfermo, será levada por dous padioleiros, quando a distancia a percorrer for pequena, em terreno plano e sem obstáculos a vencer; no caso contrario, a conduzirão os quatro padioleiros que a guarnecem.

(Continua)

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 039, de 15/02/1914, página 7 – *mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Manobras da Brigada Militar, em 1913 – Relatório do Serviço de Saúde – Parte II

A Federação, no dia 18 de janeiro de 1914, domingo, noticiava:

MANOBRAS DA BRIGADA  MILITAR

SERVIÇO DE SAÚDE – 2ª Parte

Foi installado o P. S. em um lugar abrigado das balas inimigas a uma distancia approximada de dous mil metros do campo de acção; d’hai os feridos e doentes simulados eram transportados para a ambulancia e finalmente para a Barraca-Hospital, onde poderiam ser removidos para o Hospital do Crystal, em Porto Alegre, pela Estrada de Ferro, ou em lancha do Estado, por via fluvial ou, ainda, pela estrada de rodagem que vae de Gravatahy a S. João.

Os soldados destinados a simularem ferimentos levavam ao pescoço um pequeno cartão, no qual estava escripto o ferimento recebido e durante o combate estas praças iam cahindo e os padioleiros as recolhiam prestando-lhes os primeiros soccorros, sempre utilisando-se, para esse soccorro, das peças do fardamento, armamento, equipamento, ou do pacote de curativo individual que cada praça conduzia ou, então, em, ultimo caso, do material de suas bolsas sanitarias, cuja carga deve ser sempre poupada.

Este serviço que foi dirigido por mim, teve o valioso concurso dos srs. Capitães-médicos drs. Cândido Ferreira dos Reis e Antenor Granja de Abreu.

Os padioleiros, em numero de cento e vinte, formados a dez passos de distancia do Posto de Soccorro, em duas fileiras, de acordo com o regulamento de padioleiros da Brigada Militar, constituiram-se em quatro secções, sendo cada uma destas commandada por um sargento de saúde ou seu substituto legal.

Cada secção subdividia-se em diversos grupos. Estes grupos partiam para o campo de acção, de accordo com as communicações transmitidas d’alli pelos cabos de saúde que faziam a  devida fiscalisação, informando ao Posto de Soccorro dos lugares onde existiam feridos ou doentes e, para onde, portanto, deviam dirigir-se os padioleiros, facilitando-lhes desta sorte, o trabalho de soccorro.

Alguns soccorridos, conforme a natureza do ferimento, transportavam-se a sós ou amparados por um padioleiro para o Posto de Soccorro.

Neste exercicio foram figurados diversos casos de ferimentos, tendo sido empregados todos os meios improvisados de soccorros, bem como de transporte por um, dous, tres e quatro padioleiros, attendendo-se sempre a todas as regras ministradas no regulamento de padioleiros da Brigada, que organisei e cuja adopção está dependente de approvação.
No dia 5 o campo foi coberto successivamente  pelos 1º, 2º e 3º Batalhões de Infantaria.

Houve forte tiroteio entre a linha de sentinelas e patrulhas de cavallaria e, por occasião do ataque aos postos avançados, realisou-se mais um exercício de padioleiros, tendo tomado parte as diversas secções do serviço geral de padioleiros da Brigada.

Os padioleiros partiram do local onde foi installado o hospital e dahi, incorporados, partiram para o campo de acção seguindo com elles os carros ambulâncias, cabos enfermeiros e o material de soccorros.

O Posto de Soccorro ficou a direita do abarracamento do 2º batalhão, em lugar abrigado, aproveitando-se para isso da topographia do terreno.

No Posto de Soccorro, bem como na ambulância, estava içada a bandeira distinctivo do Serviço Sanitario da Brigada, e, nos carros-ambulancias, no lado esquerdo da boleia ia um galhardete distinctivo desse serviço.

Os diversos grupos do padioleiros  foram distribuídos, de accordo com as prescripções tácticas, pela retaguarda da linha de defesa.

Foram recolhidas diversas praças, cahidas no campo de acção com ferimentos simulados e nas quaes eram reallisados os soccorros necessários, sempre aproveitando-se do material do próprio ferido ou doente.

Foram simulados diversos casos de fracturas, hemorrhagias, syncope, contusões, ferimentos por bala, etc.

Á noute o serviço, como é natural, foi feito com difficuldade, entretanto, realisou-se com toda a ordem.

Os padioleiros trabalham muito bem, mostrando aproveitamento nos ensinamentos que lhes tem sido, nos batalhões, pelos srs. Capitães-médicos, ministrados.

Os padioleiros mostraram conhecer perfeitamente a applicação technica dos soccorros, em campanha, médico-cirúrgicos e os meios de transporte dos soccorridos, sabendo tirar vantagem dos meios improvisados, utilisando-se das peças de fardamento, armamento e equipamento.

Mostraram saber abrigar-se do fogo inimigo escondendo-se em obstáculos encontrados no caminho e nas irregularidades do terreno, bem assim occultar do inimigo qualquer acto e no que podesse chamar-lhe a atenção para as potencias.

Os padioleiros levavam o distinctivo de uma faixa de flanela branca com 10 centimetros de largura, tendo no centro uma cruz vermelha da mesma fazenda.

O material destinado ao serviço do Posto constava de bolsas sanitárias, padiolas, cantis, alguns pacotes de curativo individual, pelota de Esmarch, etc.

Durante a conducção dos soccorridos qualquer que fosse a topografia do terreno, davam sempre os padioleiros posição horizontal á padiola, transpondo com as devidas regras os obstáculos, dando uniformidade no passo, etc.

O serviço foi dirigido pessoalmente por mim, tendo sido auxiliado pelos srs. Capitães-médicos Reis e Abreu.

No dia 6 realisou-se o combate final, acompanhando as forças do partido branco o sr. capitão-médico dr. Cândido dos Reis e as do partido azul o Sr. capitão-medico dr. Granja de Abreu, tendo eu seguido com o Estado Maior da Brigada.

O partido branco defendia Canoas e o azul atacava.

Em um matto existente em Canoas, nas proximidades da Estação da Estrada do Ferro, foi installado o Posto de Soccorro, que se achava convenientemente apparelhado para attender a qualquer ferido ou doente.

O partido azul teve o seu Posto de Soccorro na visinhança da chácara do sr. Raul Abbott, que, com o cavalherismo quo lhe é próprio, offereceu os seus préstimos ao Commandante geral da Brigada que, pessoalmente, agradeceu.

O combate durou o dia inteiro.

Á tarde, as forças regressavam ao acampamento sem alteração alguma, relativamento ao estado sanitário.

Foram feitos, por occasião do combate geral, alguns exercícios com o pessoal de saúde, que sempre se revelou apto para o serviço de sua profissão.

No dia 8, pela manhã, o pessoal do corpo de saúde esteve occupado com a armação do material sanitário, a fim de, ás 3 horas da tarde, formar com a columna de manobras em sua viagem de regresso para Porto Alegre.

De accordo com as ordens existentes, o corpo sanitário acompanhou a força, collocando-se em sua retaguarda e seguindo-a pela estrada do Yago até á de Canoas e por esta até ás officinas da Estrada de Ferro; d’ahi até a rua Benjamim Constant, seguindo por esta, Dr. Timotheo e Independencia até a Praça D. Sebastião, onde teve lugar o deslocamento das unidades para seus quartéis.

Á praça D. Sebastião, com uma excellente marcha, chegou a Brigada Militar, ás 6 horas e 40 minutos da tarde.

Seguiu com a força indo na retaguarda, acompanhado do sr. capitão-medico dr. Granja de Abreu e e pharmaceutico adjuncto  Jonathas da Costa Pereira.

Em seguida vinha um carro-ambulancia , trasendo padiolas e o enfermeiro mór com a caixa de soccorro da Brigada, depois mais um carro-ambulancia e finalmente carroções de quatro rodas, com bancos apropriados para o transporte de doentes e feridos.

Os cabos de saúde acompanharam, na retaguarda, os corpos a que pertenciam.

Pipas cheias d’agua potável, conduzidas por pessoal competente e com a precisa fiscalisação, iam supprindo d’agua as praças.

Apenas quinse praças dos diversos corpos, sahiram de forma e foram transportados nos referidos carroções a uma pequena distancia, voltando novamente á forma, por accusarem, quasi todas, dores nos pés, produzidas por callos, empôlas e feridas, males causados pelo calçado.

Os cabos de saúde que acompanharam os seus respectivos batalhões, prestaram bons serviços.

Os generos alimentícios eram de primeira qualidade e a alimentação era feita e destribuida de accordo com as regras de uma cosinha militar, em manobras.

Na barraca hospital. Onde foi installada a pharmacia e sala de operações, organisou-se um pequeno gabinete onde o sr. alferes dentista João Guilherme Ferreira prestou os seus serviços proffissionaes, os quaes foram muito approveitados porquanto, nos primriros dias de acampamento muitos  dos que procuravam a barraca-hospital sofriam de odontalgia.

OBSERVAÇÕES – Ao concluir, cumpre-me assignalar os seguintes dados tirados da minha observação prática individual. Cabe-me consignar aqui, que me parece de grande vantagem prática dividir o material sanitário em manobras, de modo que uma parte delle seja conduzida sobre o dorso de animais cargueiros, em volume de igual peso, dispostos convenientemente; assim será mais fácil e rápido o transporte em pontos de terreno acidentado que reclamem a presença deste material.

O serviço do saúde poderia ter uma cosinha própria, o que seria de grande vantagem para o preparo das diétas.

Para completar, o serviço de padioleiros, feito á noute, necessita-se da lanterna do dr. Barthier e do professor Gosaart, da Faculdade de Sciencias de Bordeaux, que reune todas as condições desejaveis.

Esta lanterna foi experimentada, com exito, nas manobras do serviço de saúde em Toulouse, Bordeaux e outras.

A condição principal dessa lanterna é a invisibilidade do fóco luminoso, evitando, assim despertar ao inimigo pontos de alvo.

É de lastimar que não se podesse aproveitar os banheiros de campanha, de panno impermeável, que foram encommendados para a França, com a devida antecedencia e não chegaram a tempo de serem experimentados nestas manobras.

Este banheiro, quando enrolado, forma um volume de 1 metro de comprimento sobre 0,30 centímetros de diâmetro, pesa 8 kilogrammas e assemelha-se a uma padiola de campanha.

Nas futuras manobras serão experimentados, portanto, os banheiros de campanha, bem como os carros-reservatorios (com bomba, filtro e apparelho para esterilização d’agua) e o carro de medicina e cirurgia.

Seria conveniente que o kepi soffresse uma pequena modificação, durante as manobras, por julgar de melhor effeito, e que é o uso do guarda-nuca de brim, que, sendo uma peça de pequeno custo e fácil adaptação a qualquer bonet, presta o grande serviço de preservar o soldado da acção directa dos raios solares, que é tão incommoda e perigosa nos  dias quentes.

Parece-me de muita utilidade que os médicos, em suas prelecções praticas, feitas nos corpos, explicassem á uma praça escolhida noções de pedicuria, providenciando-se ao mesmo tempo para que, em cada ambulancia, exista uma carteira, contendo o instrumental, modelo A. Girardot, usado nesse serviço, cujas vantajens são evidentes.

Assim evitaríamos que algumas praças saiam de fórma, durante a marcha, levadas pelas dores que soffrem e outras usem botinas cortadas ou procurem descalçar-se, produzindo tudo isto um péssimo effeito.

Vem a propósito lembrar o que diz o medico militar francez dr. Lemoine — sobre as condições geraes de um bom calçado para o soldado, de modo a não magoar-lhe os pés: “o ideal seria confeccionar o calçado de accordo com o pé de cada um”.

Mas é fóra de duvida que temos de levar em conta também a qualidade do material empregado, a sua resistencia e a confecção cuidadosa do calçado – como muito bem ponderou o medico do exercito nacional, tenente coronel dr. Manoel Pedro Vieira, chefe do serviço de saude e veterinaria da 9ª região militar, no seu relatório das manobras de 1912, na fazenda dos Affonsos e apresentado ao sr. general dr. Antonio Geraldo de Souza Aguiar.

Imagens constantes do artigo:

18 01 1914 - Manobras da BM - Sv Saúde B

CACOLET – Meio de transporte de feridos ou doentes em terreno montanhoso

 

18 01 1914 - Manobras da BM - Sv Saúde E

LITEIRA – Outro meio de transporte de doente ou ferido, deitado

 

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 015, de 18/01/1914, página 5 – *mantida a grafia da época

 

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Hospital da Brigada Militar – 10º Aniversário – Discurso do Capitão Médico Armando de Mello Barbedo.

A Federação, no dia 03 de janeiro de 1917, quarta-feira, noticiava:

Festa no Hospital da Brigada Militar

Conforme promettemos em nossa edição de hontem, a seguir reproduzimos o discurso pronunciado pelo capitão medico dr. Armando de Mello Barbedo, por occasião da inauguração dos retratos do general Salvador Pinheiro Machado, vice-presidente do Estado, em exercicio, e tenente-coronel Affonso Emilio Massot, commandante interino da Brigada Militar, na sala do recepção do hospital daquella milicia estadual, no dia 1º do corrente mez.

“Ilmo. sr. representante do exmo. sr. General Salvador Pinheiro Machado, vice-presidente do Estado, em exercício, sr. dr. Protasio Alves, Secretario do Interior, tenente-coronel Affonso Emilio Massot, commandamte geral da Brigada Militar, srs. commandantes de corpos e meus senhores:

Hoje, ha 10 annos, pela ordem do dia n. 365, de 31 de dezembro de 1906, foi creado este estabelecimento, actualmenle denominado Hospital da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, por acto do  Governo do Estado e constante da ordem do dia nº 236, de 4 de agosto de 1911.

Foi creado pelo exmo. sr. dr. Antonio Augusto Borges de Medeiros, presidente do Estado, estando no commando geral da Brigada o então coronel José Carlos Pinto e na chefia do Serviço Sanitario o sr. capitão dr. João Dias Campos.

O nosso Hospital constitue, hoje, uma das repartições importantes da Brigada Militar, a qual, dia a dia vae se impondo, mais e mais, ao respeito e á consideração publica pela sua excellente organização, pela sua disciplina que tem sido a base solida do seu progresso. Essa força, pela qual o Rio Grande tem, na phrase de um notável republicano: “um affecto particular, affecto que vem de grande e terrível época em que soube ella derramar o sangue de seus soldados em defesa da República, nas coxilhas do Rio Grande, tingindo o verde das campinas de rubro”.

Prevalecendo-me desta data gratíssima para nós, que temos o orgulho de pertencer a uma corporação tão digna e prestimosa, tomei a iniciativa, como chefe interino do Serviço Sanitário, de inaugurar nesta sala, com a devida permissão do meu chefe, os retratos dos srs. General Salvador Ayres Pinheiro Machado e tenente-coronel Affonso Emilio Massot.

Essas duas individualidades distinctas representam um traço de união indestrutível da vida da nossa Brigada Militar, a que ambos estão vinculados por serviços inesquecíveis, importantes, que constituem um belo patrimônio moral, guardado com zelo e carinho dos bons patriotas rio-grandenses.

Sem atribuições nem intenção de balancear os serviços valiosos que já prestou diretamente á nossa Brigada o sr. general e os está prestando o actual comandante, seja-me permitido, todavia, dizer que esses serviços estão em relevo na consciência de todos nós que admiramos com respeito o solícito interesse nos atos daquele que sempre trata de melhorar a situação da Brigada Militar e o especial zelo e dedicação consciente do nosso comandante geral cujo tino militar tive a ocasião de ver consagrado por opiniões de competentes, imprimindo ainda á sua administração o cunho brilhante do seu espírito progressista e organizador.

Estes dous representantes genuínos dos mais dignos servidores militares do nosso Rio Grande, não limitam seu glorioso passado ao conjunto generoso de sua acção guerreira: a fé republicana e a lealdade política aninharam-se sempre no coração de ambos e foram postas em evidencia por actos nobres de caracter que não preciso aqui rememorar.

Elles estão gravados indelevelmente na história republicana do Rio Grande!

Tornar-me-ia prolixo, se fosse citar todos os feitos de valor e abnegação patriótica deste leaes servidores da Republica Brazileira.

Os lugares que os retratos de ambos vão ocupar na galeria desta sala, ao lado de alguns de seus antigos companheiros  de luctas politicas e guerreiras, já os esperavam há muito tempo.

Este acto é uma homenagem justíssima.

Sem esquecer os progressos realizados na vida interna do Serviço Sanitário da Brigada, devo consignar aqui os de elevado alcance, que foram obtidos no actual exercício do exmo. Sr. General vice-presidente e no comando do sr. Tenente-coronel Massot: a expedição do Regulamento para os Internos deste Hospital (decreto n. 2.157, de 21 de setembro de 1915) e a creação de um Posto Médico no Quartel de Infantaria (ordem do dia n. 62, de 1º de julho de 1915), cujas vantagens sanitárias e econômicas têm sido provadas na prática quotidianamente, prestando inestimáveis serviços com mínima despeza, conforme eu previra.

Chegou o dia de realizar-se outro importante melhoramento para este Hospital e para o Serviço Sanitário em Geral: a creação do Curso Prático de Enfermeiros e Padioleiros, que acaba de ser feita pela sr. Commandante Massot.

Estou de parabéns, com todos aquelles que servem na Brigada, sob minha chefia interina.

Seja-me permitido ler aqui a cópia do officio que dirigi ao sr. Comandante Massot, referente ao Curso de Enfermeiros e Padioleiros da Brigada Militar. Ei-lo:

“Ilmo. Sr. tenente-coronel Affonso Emilio Massot, d.d. comandante geral da Brigada Militar.

Com prazer venho submeter ao vosso elevado critério e deliberação o incluso regulamento que organizei para a creação de um Curso Pártico de Enfermeiros e padioleiros da Brigada Militar, anexo ao Hospital. Relevae que, em abono desse melhoramento de alto valor para o nosso serviçoeu deduza as seguintes considerações: A creação deste Curso, impõe-se como importante melhoramento de resultados practicos e reaes. O preparo de enfermeiros e padioleiros como profissionais competentes trará vantagem incontestável para o Serviço Sanitário da Brigada Militar.

Nos grandes hospitais, quase em sua totalidade, há Escolas de enfermeiros, onde são eles preparados e habilitados na technica indispensável, não só para o serviço hospitalar, como para o domiciliário, de modo que se tornam bons auxiliares dos médicos no serviço sanitário militar, podendo ainda, fora dele, servir-lhe de profissão de meio de vida em casa de saúde, sanatórios civis, lazaretos ou outros estabelecimentos congêneres. Tal creação terá, indubitavelmente, bons resultados imanentes que ressaltam sobremaneira, considerando que, em geral, o cargo de enfermeiro é confiado a indivíduos cujo tirocínio foi adquirido accidental e incompletamente no convívio forçado do Hospital, onde estiveram por longo tempo em tratamento, devido, quase sempre, a moléstias chronicas que lhes roubaram do organismo a robustez physica indispensável e a atividade, condições tão preciosas para o desempenho desta profissão. Isto é o que se dá nos hospitais civis, nos quaes a situação destes indivíduos é, até certo ponto, suportável. Num hospital militar, são escolhidos, ordinariamente, para tal fim, homens sadios mas sem os conhecimentos technicos indispensáveis, que facilmente poderão adquirir, uma vez submetidos ás normas de de um curso, embora modesto como o nosso, que ora proponho e cuja utilidade vos digneis verificar.

Para por em relevo e facilitar o juízo seguro sobre o valor profissional do enfermeiro, cujas funções são mais elevadas do que parece á primeira vista, citarei as honrosas referências feitas pelo notável médico que honra a França, dr. Maurice Letulle que diz: “O enfermeiro e solícito, consciencioso e abnegado, é um auxiliar indispensável na vida social; ricos e pobres, pequenos e grandes, todo mundo passa por suas mãos; cada um, por seu turno, tem necessidades dos seus serviços, dos seus cuidados. A assistência aos enfermos, seja particular ou pública, encontra no enfermeiro o instrumento fundamental de sua beneficência. É preciso, pois, educa-lo de uma maneira irreprehensivel de conformidade com os dictames da sciencia, da medicina e da hygiene modernas”.

Bastam os conceitos ponderados e justos desse ilustrado medico para evidenciar o enorme incalculável serviço que a creação do Curso Prático de Enfermeiros e Padioleiros prestará á nossa Brigada Militar, cuja secção de enfermeiros poderá ser constituída de pessoal competentemente instruído e apto para as suas funções.

Quando submeti á sua elevada deliberação o regulamento do Curso em questão, tinha plena certeza de que seria aceito de bom grado, porquanto conheço o seu hábito de estudar e resolver os assuntos a ele submetidos.

A creação desse curso, indubitavelmente, é uma iniciativa de grande alcance, tornando os seus enfermeiros e padioleiros profissionais idôneos, enaltecendo, assim, o Serviço Sanitário da Brigada Militar, que terá, então a sua secção de Enfermeiros composta de profissionais habilitados e as diversas unidades terão em seus quartéis homens aptos para desempenhar a profissão de enfermeiros ou padioleiros, quando, de momento, houver necessidade.

Para tal certamen, pode-se contar com o concurso valioso dos officiaes de saúde da Brigada, que sabem muito bem dos relevantíssimos serviços que tem prestado na guerra Européia o serviço sanitário e o valor merecido que lá lhe dispensam os governos, convictos de sua grande utilidade e vantagens.

Não é uma inovação e creação de Escolas de Enfermeiros.

Já em 1798, o dr. Valentim Siemann instituira um ensino especial para enfermeiros junto ao Hospital de New York.

Em 1928, Elisabeth Try, tivera o mesmo procedimento para com os enfermeiros do Guy-Hospital de Londres. Appareceu depois, miss Florence Nightingale sobre a qual refere-se o médico chileno, dr. Moysés, da seguinte forma: “Miss Florence Nightingale pode ser considerada, com justiça, como a verdadeira credora das escolas de enfermeiros.

Nasceu ella em Florença, em 1820, era filha de paes ilustres, possuía sentimentos tão nobres, tão elevados e abrigava um coração tão bondoso e terno que não podia ver a desgraça alheia sem sofrer grande pezar. Sendo jovem, de formosura pouco comum e dotada de grande fortuna, renunciou a vida social e aos attractivos da família para consagra-se ao cuidado dos enfermos. Apenas contava vinte e cinco anos de idade quando emprehendeu uma excursão pelos países do mundo civilizado com o fim de estudar as melhores condições de assistência hospitalar.

Digna de recordação é a  participação que Florence Nightingale tomou na Guerra da Criméia. O governo inglez confiou-lhe a direção absoluta do pessoal feminino enviado ao coampo de batalha para soccorer aos enfermos e atender aos feridos. Tão habilmente soube ella desempenhar-se do seu importante papel que bastará dizer, mediante seus acertados trabalhos, fez descer a mortalidade das ambulâncias inglesas de 60% que antes eram de 2,21%.

Este esplendido resultado deve indubitavelmente, ser attribuido á inteligente direção de Florence Nightingale, á implantação vigorosa dos princípios de hygiene, á constante vigilância da diretora e á abnegada dedicação de suas subalternas.

Esta reduzida cifra de mortalidade inglesa contrastava com a excessiva mortalidade dos exércitos francez e russo. Esta obra realizada com tanto brilho nas ambulâncias inglesas de á Miss Florence Nightingale um nome honroso muito maior, porém, foi a fama que ella adquiriu nos hospitais do seu paíz, organizando os serviços e estabelecendo definitivamente as escolas de enfermeiros. Ella foi quem primeiro demonstrou praticamente que um enfermeiro bem educado e instruído é um colaborador indispensável do médico.

Aconteceu a Miss Florence Nightingale o que sempre sucede aos que implantam reformas transcendentes ou de alta importância: Foi combatida energicamente; mas logo os ataques cessaram em vista dos magníficos resultados obtidos e teve-se de confessar que a sua recente creação era um verdadeiro bem público.

Em reconhecimento de tão assignalados serviços a Inglaterra ofereceu-lhe, por subscrição popular, a quantia de 10.000 libras para que fundasse o primeiro instituto de enfermeiros profissionais. Este foi instalado no Hospital de São Thomaz, em Londres (370 leitos), e começou a funcionar com toda a regularidade no anno de 1860.

A contar desta data a creação de Miss Florence Nightingale tem continuado a desenvolver-se e a prosperar.

Actualmente existem na Inglaterra mais de 500 escolas. Nos Estados Unidos da América do Norte, funcionam 1.200 escolas officiaes de enfermeiros. O dr. Bourneville foi o iniciador dessas escolas na França.

E assim tem sido grande a propaganda com feliz êxito na Allemanha, Hollanda, Suéecia, Noruega, Japão, etc., onde as escolas de enfermeiros são organizadas com todo o conforto. Na Republica Argentina, em Buenos Ayres, a dra. Cecilia Grierson creou a escola de enfermeiras, em 1875. Esta instituição tem prestado relevantes serviços ao público de Buenos Ayres. Em 1902, foi creada no Chile a primeira escola no Hospital São Borja, pelo medico chileno Eduardo Moure.

No Rio de Janeiro, a Cruz Vermelha Brazileira creou a Escola Pratica de Enfermeiros no dia 10 de março do corrente anno, cuja licção inaugural foi proferida pelo dr. Getulio dos Santos, o qual, com os doutores Estellita Lins e Souza Ferreira compõem o corpo de professores daquela escola. O dr. Getulio dos santos termina a sua bela e magistral licção dizendo: ‘Finalmente, são mandamentos que devem fazer parte da cartilha de todo bom enfermeiro, isto é daquele que quiser inspirar confiança, essa confiança que é o primeiro allívio que se pode dar aos que sofrerem, na frase do professor Hartmann, as seguintes qualidades:

1º – Ter um bom temperamento, isto é, esforçar-se por ter o mesmo humor, a mesma paciência, muita calma;

2º – Ser amável, delicado, zeloso, corajoso, disposto a suportar sacrifícios e dissabores, por vezes inevitáveis, na presença dos enfermos, cujos caracteres são tão bizarros;

3º Junto dos enfermos, não mostrar indiferença na expressão da physionomia; eles são impressionáveis e sabem ler nos olhos dos que os tratam tudo que lhes diz respeito …;

4º – De mão leve e firme, ter carácter decisivo, ser obediente, respeitoso e pontual;

5º – Nunca se dirige ao enfermo como chefe ou superior e sim como guia e amigo bondoso; uma palavra amável, um sorriso, evitam as vezes a cólera ou a explosão de violências;

6º – Evitar qualquer excesso de intimidade ou familiaridade com os enfermos; ser seu servidor, com autoridade e afeto;

7º – Não ser apressado nem vagaroso ou desajeitado, más qualidades que dão ao enfermo uma impressão dolorosa;

8º – Fallar sempre a verdade para merecer a confiança de todos;

9º –  Não fallar demais, não tratar de sua saúde com os enfermos e respeitar os companheiros de trabalho;

10 – Mostrar sempre satisfação em prestar qualquer serviço aos enfermos e atender com indulgência as reclamações, tendo em consideração que, segundo as palavras de Shakespeare, “Deixamos de ser nós mesmos quando a dor physica nos domina”.

São os enfermeiros dotados de todos esses admiráveis predicados que, na expressão do dr. Hamilton “transformam a atmosfera hospitalar; graças a eles o hospital deixará de ser um lugar de pavor, um soccorro que faz horror, para onde os humildes da terra só se deixam levar pelo excesso da dor”.

A creação do nosso curso trará, forçosamente, vantagens incontestáveis para o Serviço Sanitário da Brigada e o que desejamos é que ele seja duradouro, porque assim teremos os nossos enfermeiros militares profissionais competentes.

André Tudoso, escrevendo sobre o valor dos padioleiros, diz; “Os padioleiros, na galeria dos heróes têm direito a um lugar de honra.”

O padioleiro deve ser forte, ágil, criterioso e valente.

Desarmado, atira-se á frente do inimigo, sem usar da carabina ou das granadas no campo de batalha.

Referindo-se a uma ambulância que figura na primeira linha, a 900 metros do inimigo, num território próximo a Liége, e que dispunha de 600 padioleiros, conta actos de bravura dos padioleiros, dos quaes eu cito o seguinte: “Uma manhã, pelas 10 horas, , disse-me, o comandante dos caçadores comunicou-me  pelo telefone que, havendo explodido um fortim construído na linha de frente, para abrigo das metralhadoras, dez homens que se achavam próximo estavam inutilizados. Cinco haviam morrido e os cinco restantes estavam gravemente feridos; era necessário recolhel-os e, para isso, tinham uma hora e meia, pois ao meio-dia devia se atacar o inimigo.

Reuni os meus homens, ás ordens do ajudante da ambulância. Dez padioleiros destemidos! Exclamei. Depois de lhes ter transmitido as ordens do coronel, acrescentei: “É necessário passar, custe o que custar”. Se os dez primeiros voluntários morrerem, devem estar preparados outros dez, na orla do bosque”.

O ajudante fez a continência e respondeu; “- Passaremos!”

Ás 11 e 30 o ajudante estava de volta com os cinco soldados feridos. Felicitei-o. Oh! Respondeu, foi empresa fácil; sinto, porém, comunicar-lhe que dois dos nossos camaradas morreram. Nós trouxemos os seus cadáveres; e, sem entrar em outros detalhes, um tanto pálido, retirou-se.”

No dia seguinte, chegou á ambulância um capitão ferido, que me disse: “Você tem sob suas ordens homens de valor extraordinário; em minha trincheira os quizera ter assim; sobretudo o ajudante, que é valoroso. E, por sua vez relatou: “ – Os dez padioleiros e seu comandante apresentaram-se na primeira linha. Recebi-os. Deram-me conta da delicada missão que ali os levara. Não saiam, disse-lhes. O fogo é terrível e incessante e a aventura pode custar-lhe a vida, proibindo-os de avançarem. O ajudante retorquiu: Pertencemos ao serviço médico. Nosso major chefe ordenou que fossemos recolher os feridos do fortim “custasse o que custasse”, e logo acrescentou a famosa frase: – por onde passarem os caçadores, passaremos também, meu capitão. E tocando um apito lançou-se á testa de seus homens. Sessenta metros, em terreno descoberto, furiosamente varrido pelas metralhadoras, tinha de ser transpostos. O pequeno grupo sobre, salta, cae, arrasta-se .. e passa. Na trincheira inimiga os alemães os vê surgir, com espanto e admiração. O official alemão grita em bom francez: “isso que estão fazendo é uma temeridade: não voltarão.” E, de facto, o mais difícil era o regresso. Não obstante a ameaça, seguida de execução, voltaram ás linhas francezas, carregando, cada um, sobre os hombros, um ferido ou um morto. O ajudante de pé, sem outra arma além do seu rebenque, dava ordens a seus comandados, calmamente, debaixo do fogo inimigo. Dois padioleiros morreram. O ajudante carregou, então, os soldados primeiro e, logo em seguida, os seus subordinados, sendo nesse trabalho atingido por uma bala que lhe atravessou um braço.

Meus senhores. É tempo de terminar.

A nossa presença aqui representa três actos que dignificam a existência útil da nossa Brigada Militar: Uma justa homenagem ao exmo. General Salvador Pinheiro Machado e comandante Massot, a comemoração da data em que se fundou este estabelecimento e a inauguração do Curso de Enfermeiros e Padioleiros.

O coração inteiro da Brigada Militar, através da satisfação emanada da solenidade aqui realizada hoje com um fim tríplice, tem, forçosamente de lembrar-se daquele cujo nome é um lábaro precioso que nos guia os passos, fortalecendo as inspirações do nosso patriotismo: Julio de Castilhos, o imortal creador da Brigada Militar. A ele, sempre e sempre a nossa gratidão e profundo repeito.

Tenho dito.”
*Mantida a grafia da época.

Fonte: Jornal A Federação, Ano XXXIV, edição 003, de 03/01/1917, quarta-feira, página 2

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Curso de Enfermeiros e Padioleiros da Brigada Militar.

A Federação, no dia 23 de outubro de 1916, segunda-feira, noticiava:

Curso pratico de enfermeiros e padioleiros da Brigada Militar – Em reunião dos officiaes do Serviço Sanitário da Brigada Militar ficou deliberado a distribuição abaixo mencionada das diversas cadeiras do Curso pratico de enfermeiros e padioleiros da Brigada Militar:

Aulas

– Conhecimento das diversas disposições em vigor, observadas no serviço sanitario da Brigada que tenham relação com o cargo de enfermeiro – Professor –  capitão dr. Armando Bello Barbedo.

– Noções elementares indispensáveis de physiça e chimica. Cuidados aos doentes de affecções internas. – Professor – dr. Antonio da Silva Fróes.

– Deontologia. Deveres dos enfermeiros militares. Moral profissional. Noções geraes e indispensáveis de hygiene militar. Prophylaxia. – Professor – capitão dr. Cândido Ferreira dos Reis.

– Noções elementares de pequena cirurgia. Cuidados aos doentes, de affecções externas. Apparelhos, Soccorros medico-cirurgicos de urgência; meios existentes e improvisados.  – Professor – Capitão dr. Antenor Granja de Abreu.

– Noções elementares indispensaveis de anatomia e physiologia. Cuidados aos doentos de olhos, ouvidos, nariz e garganta.  – Professor – dr. Adalgiso Ferreira de Souza.

– Noções elementares de Pharmacia, urologia e toxicologia. Professor – Alferes pharmaceutico João Patricio Ramirez.

– Noções praticas de odontologia e de hygiene e cuidados da bocca. – Professor – Alferes dentista, Mario Carigó Gomes da Silva.

*Mantida a grafia da época

Fonte: Jornal A Federação, Ano XXXIII, edição 246, de 23/10/1916, segunda-feira, página 3