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A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Equipamentos para o Hospital da Brigada Militar adquiridos na Europa, em 1915.

A Federação, no dia 16 de junho de 1915, quarta-feira, noticiava

Commissão examinadora – São nomeados, em comissão, para examinarem, amanhã, ás 10 horas, na assistencia do material da Brigada Militar, as  mezas para operações recebidas ultimamente da Europa e destinadas ao Hospital, os srs. Capitão dr. Armando Bello Barbedo, Tenente José Machado da Silva e Alferes João Pinto Guimarães.

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXII, edição 137, de 16/06/1915, quarta-feira, página 5 – *mantida a grafia da época

 

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Brigada Militar faz concorrência pública para adquirir gêneros alimentícios e carvão nacional, em 1917.

Brigada Militar do Estado

Assistência do material

De ordem do cidadão Coronel Commandante Geral, chamo concurrentes para o fornecimento de generos alimentícios ás Praças arranchadas desta força, dietas para os doentes em tratamento no Hospital e carvão nacional para o consumo dos motores do Quartel de Cavallaria e Hospital, no Crystal, no segundo semestre do corrente anno.

As propostas, em uma só via, deverão ser entregues na Secretaria do Commando Geral, no dia 20 do corrente.

Os pretendentes poderão receber informações todos os dias uteis das 13 ás 16 horas, nesta Assistencia.

Quartel do Commando Geral em Porto Alegre, 5 de junho de 1917.

Arlindo Franklin Barboza

Capitão Assistente do Material

Fonte: A Federação, Anno XXXIV, Edição 129, de 05/06/1917, terça-feira, pág. 2. *Mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Desastre com automóvel da Brigada Militar, em 1912

Correio do Povo, no dia 9 de maio de 1912, quinta-feira, noticiava:

Diversas

Desastre por automovel – Ante-hontem, ás 4 1/2 horas da tarde, partiu da estação da estrada de ferro da Tristeza, o automovel que a Brigada Militar possue para o serviço de seu hospital, situado no Crystal. Além do chauffer, viajavam no automovel o dr. João Guilherme Ferreira, cirurgião dentista da Brigada, e duas praças. Ao chegarem em frente ao Asylo de Mendicidade, seguia pela estrada um peão do general Salvador Pinheiro Machado, montado em um cavallo e conduzindo, a cabresto, dois outros animaes de raça. A approximação do automovel, os cavallos assustaram-se e dispararam, sendo o seu conductor cuspido fóra do animal, caindo entre os trilhos, ao longo destes, e muito perto do automovel, que se approximava, e que lhe passou por cima do corpo. Parado, rapidamente o vehiculo foi verificado estar aquelle peão com uma excoriação no lado direito da cabeça. Conduzido para o hospital da Brigada, ali lhe foi pensado o ferimento.

Fonte: Correio do Povo – Coluna “Há um século no Correio do Povo”. *Mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Visita do Presidente do Estado ao Hospital da Brigada Militar, em 1912.

Correio do Povo do dia 16 de abril de 1912, terça-feira, noticiava:

Hospital da Brigada Militar  – Visita do presidente do Estado

Em trem expresso, seguiram hontem, ás 9 1/4 da manhã para o Crystal o dr. Carlos Barbosa, presidente do Estado, dr. Protasio Alves, secretario do Interior, coronel Cypriano da Costa Ferreira, commandante da Brigada Militar e o representante do Correio do Povo, a fim de visitarem o hospital da Brigada Militar. Ás 9 3/4 chegava o comboio no morro do hospital, sendo feito, a pé, o trajecto até ao edificio, que fica situado no alto da collina. Feitos os cumprimentos do estylo, os visitantes deram entrada no hospital, visitando as quatro salas de enfermarias onde se acham 61 doentes. Por toda a parte era notado o asseio e ordem mantidos pelas irmãs encarregadas do hospital. No anno passado, só falleceu um enfermo no hospital, dentre perto de quinhentos que ali estiveram. O dr. Carlos Barbosa, como todos outros visitantes sairam bem impressionados com o estado em que encontraram o hospital.

Foto do Hospital da Brigada Militar, em 1918.

Foto do Hospital da Brigada Militar, em 1918.

Fonte: Jornal Correio do Povo – Coluna “Há um século no Correio do Povo”

Atual instalações da Academia de Polícia Militar

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Ambulância adquirida na Europa, para a Brigada Militar, em 1911.

Correio do Povo, no dia 26 de março de 1911, sábado, noticiava:

 Automovel da Brigada – Vimos, na estação do Riacho, da estrada de ferro da Tristeza, o grande automovel com accommodações para nove pessoas, mandado vir da Europa para o serviço de ambulancia da Brigada Militar.

Fonte: Correio do Povo – Coluna “Há um século no Correio do Povo”.

Atual instalações da Academia de Polícia Militar

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Irmãs de Caridade na direção do Hospital da Brigada Militar – em 1912.

Correio do Povo, no dia 2 de março de 1912, sexta-feira, noticiava:

Hospital da Brigada

Foi hontem, ás 6 horas da manhã, entregue ás irmãs de caridade franciscanas, a direcção do hospital da Brigada Militar do Estado, situado no morro do Crystal. No primeiro trem da estrada de ferro da Tristeza, seguiram para ali o coronel Cypriano Ferreira e seu ajudante de ordens, tenente José Augusto Wellausen. A inauguração official desse estabelecimento far-se-á dentro de poucos dias, pelo dr. Carlos Barbosa, presidente do Estado, devendo, para isso, ser convidadas as autoridades desta capital. Servem actualmente no hospital quatro enfermeiras, sob a direcção da irmã Casemira. O padre Estevam, capellão do hospital, conta 72 annos de idade, é um velhinho amavel, residindo no Brazil ha 42 annos, sendo de nacionalidade allemã.

Foto do Hospital da Brigada Militar, em 1918.

Foto do Hospital da Brigada Militar, em 1918.

Hospital da Brigada Militar
Crédito: CP memória

Fonte: Jornal Correio do Povo – Coluna “Há um século no Correio do Povo”.

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Manobras da Brigada Militar, em 1913 – Relatório do Serviço de Saúde – Parte II

A Federação, no dia 18 de janeiro de 1914, domingo, noticiava:

MANOBRAS DA BRIGADA  MILITAR

SERVIÇO DE SAÚDE – 2ª Parte

Foi installado o P. S. em um lugar abrigado das balas inimigas a uma distancia approximada de dous mil metros do campo de acção; d’hai os feridos e doentes simulados eram transportados para a ambulancia e finalmente para a Barraca-Hospital, onde poderiam ser removidos para o Hospital do Crystal, em Porto Alegre, pela Estrada de Ferro, ou em lancha do Estado, por via fluvial ou, ainda, pela estrada de rodagem que vae de Gravatahy a S. João.

Os soldados destinados a simularem ferimentos levavam ao pescoço um pequeno cartão, no qual estava escripto o ferimento recebido e durante o combate estas praças iam cahindo e os padioleiros as recolhiam prestando-lhes os primeiros soccorros, sempre utilisando-se, para esse soccorro, das peças do fardamento, armamento, equipamento, ou do pacote de curativo individual que cada praça conduzia ou, então, em, ultimo caso, do material de suas bolsas sanitarias, cuja carga deve ser sempre poupada.

Este serviço que foi dirigido por mim, teve o valioso concurso dos srs. Capitães-médicos drs. Cândido Ferreira dos Reis e Antenor Granja de Abreu.

Os padioleiros, em numero de cento e vinte, formados a dez passos de distancia do Posto de Soccorro, em duas fileiras, de acordo com o regulamento de padioleiros da Brigada Militar, constituiram-se em quatro secções, sendo cada uma destas commandada por um sargento de saúde ou seu substituto legal.

Cada secção subdividia-se em diversos grupos. Estes grupos partiam para o campo de acção, de accordo com as communicações transmitidas d’alli pelos cabos de saúde que faziam a  devida fiscalisação, informando ao Posto de Soccorro dos lugares onde existiam feridos ou doentes e, para onde, portanto, deviam dirigir-se os padioleiros, facilitando-lhes desta sorte, o trabalho de soccorro.

Alguns soccorridos, conforme a natureza do ferimento, transportavam-se a sós ou amparados por um padioleiro para o Posto de Soccorro.

Neste exercicio foram figurados diversos casos de ferimentos, tendo sido empregados todos os meios improvisados de soccorros, bem como de transporte por um, dous, tres e quatro padioleiros, attendendo-se sempre a todas as regras ministradas no regulamento de padioleiros da Brigada, que organisei e cuja adopção está dependente de approvação.
No dia 5 o campo foi coberto successivamente  pelos 1º, 2º e 3º Batalhões de Infantaria.

Houve forte tiroteio entre a linha de sentinelas e patrulhas de cavallaria e, por occasião do ataque aos postos avançados, realisou-se mais um exercício de padioleiros, tendo tomado parte as diversas secções do serviço geral de padioleiros da Brigada.

Os padioleiros partiram do local onde foi installado o hospital e dahi, incorporados, partiram para o campo de acção seguindo com elles os carros ambulâncias, cabos enfermeiros e o material de soccorros.

O Posto de Soccorro ficou a direita do abarracamento do 2º batalhão, em lugar abrigado, aproveitando-se para isso da topographia do terreno.

No Posto de Soccorro, bem como na ambulância, estava içada a bandeira distinctivo do Serviço Sanitario da Brigada, e, nos carros-ambulancias, no lado esquerdo da boleia ia um galhardete distinctivo desse serviço.

Os diversos grupos do padioleiros  foram distribuídos, de accordo com as prescripções tácticas, pela retaguarda da linha de defesa.

Foram recolhidas diversas praças, cahidas no campo de acção com ferimentos simulados e nas quaes eram reallisados os soccorros necessários, sempre aproveitando-se do material do próprio ferido ou doente.

Foram simulados diversos casos de fracturas, hemorrhagias, syncope, contusões, ferimentos por bala, etc.

Á noute o serviço, como é natural, foi feito com difficuldade, entretanto, realisou-se com toda a ordem.

Os padioleiros trabalham muito bem, mostrando aproveitamento nos ensinamentos que lhes tem sido, nos batalhões, pelos srs. Capitães-médicos, ministrados.

Os padioleiros mostraram conhecer perfeitamente a applicação technica dos soccorros, em campanha, médico-cirúrgicos e os meios de transporte dos soccorridos, sabendo tirar vantagem dos meios improvisados, utilisando-se das peças de fardamento, armamento e equipamento.

Mostraram saber abrigar-se do fogo inimigo escondendo-se em obstáculos encontrados no caminho e nas irregularidades do terreno, bem assim occultar do inimigo qualquer acto e no que podesse chamar-lhe a atenção para as potencias.

Os padioleiros levavam o distinctivo de uma faixa de flanela branca com 10 centimetros de largura, tendo no centro uma cruz vermelha da mesma fazenda.

O material destinado ao serviço do Posto constava de bolsas sanitárias, padiolas, cantis, alguns pacotes de curativo individual, pelota de Esmarch, etc.

Durante a conducção dos soccorridos qualquer que fosse a topografia do terreno, davam sempre os padioleiros posição horizontal á padiola, transpondo com as devidas regras os obstáculos, dando uniformidade no passo, etc.

O serviço foi dirigido pessoalmente por mim, tendo sido auxiliado pelos srs. Capitães-médicos Reis e Abreu.

No dia 6 realisou-se o combate final, acompanhando as forças do partido branco o sr. capitão-médico dr. Cândido dos Reis e as do partido azul o Sr. capitão-medico dr. Granja de Abreu, tendo eu seguido com o Estado Maior da Brigada.

O partido branco defendia Canoas e o azul atacava.

Em um matto existente em Canoas, nas proximidades da Estação da Estrada do Ferro, foi installado o Posto de Soccorro, que se achava convenientemente apparelhado para attender a qualquer ferido ou doente.

O partido azul teve o seu Posto de Soccorro na visinhança da chácara do sr. Raul Abbott, que, com o cavalherismo quo lhe é próprio, offereceu os seus préstimos ao Commandante geral da Brigada que, pessoalmente, agradeceu.

O combate durou o dia inteiro.

Á tarde, as forças regressavam ao acampamento sem alteração alguma, relativamento ao estado sanitário.

Foram feitos, por occasião do combate geral, alguns exercícios com o pessoal de saúde, que sempre se revelou apto para o serviço de sua profissão.

No dia 8, pela manhã, o pessoal do corpo de saúde esteve occupado com a armação do material sanitário, a fim de, ás 3 horas da tarde, formar com a columna de manobras em sua viagem de regresso para Porto Alegre.

De accordo com as ordens existentes, o corpo sanitário acompanhou a força, collocando-se em sua retaguarda e seguindo-a pela estrada do Yago até á de Canoas e por esta até ás officinas da Estrada de Ferro; d’ahi até a rua Benjamim Constant, seguindo por esta, Dr. Timotheo e Independencia até a Praça D. Sebastião, onde teve lugar o deslocamento das unidades para seus quartéis.

Á praça D. Sebastião, com uma excellente marcha, chegou a Brigada Militar, ás 6 horas e 40 minutos da tarde.

Seguiu com a força indo na retaguarda, acompanhado do sr. capitão-medico dr. Granja de Abreu e e pharmaceutico adjuncto  Jonathas da Costa Pereira.

Em seguida vinha um carro-ambulancia , trasendo padiolas e o enfermeiro mór com a caixa de soccorro da Brigada, depois mais um carro-ambulancia e finalmente carroções de quatro rodas, com bancos apropriados para o transporte de doentes e feridos.

Os cabos de saúde acompanharam, na retaguarda, os corpos a que pertenciam.

Pipas cheias d’agua potável, conduzidas por pessoal competente e com a precisa fiscalisação, iam supprindo d’agua as praças.

Apenas quinse praças dos diversos corpos, sahiram de forma e foram transportados nos referidos carroções a uma pequena distancia, voltando novamente á forma, por accusarem, quasi todas, dores nos pés, produzidas por callos, empôlas e feridas, males causados pelo calçado.

Os cabos de saúde que acompanharam os seus respectivos batalhões, prestaram bons serviços.

Os generos alimentícios eram de primeira qualidade e a alimentação era feita e destribuida de accordo com as regras de uma cosinha militar, em manobras.

Na barraca hospital. Onde foi installada a pharmacia e sala de operações, organisou-se um pequeno gabinete onde o sr. alferes dentista João Guilherme Ferreira prestou os seus serviços proffissionaes, os quaes foram muito approveitados porquanto, nos primriros dias de acampamento muitos  dos que procuravam a barraca-hospital sofriam de odontalgia.

OBSERVAÇÕES – Ao concluir, cumpre-me assignalar os seguintes dados tirados da minha observação prática individual. Cabe-me consignar aqui, que me parece de grande vantagem prática dividir o material sanitário em manobras, de modo que uma parte delle seja conduzida sobre o dorso de animais cargueiros, em volume de igual peso, dispostos convenientemente; assim será mais fácil e rápido o transporte em pontos de terreno acidentado que reclamem a presença deste material.

O serviço do saúde poderia ter uma cosinha própria, o que seria de grande vantagem para o preparo das diétas.

Para completar, o serviço de padioleiros, feito á noute, necessita-se da lanterna do dr. Barthier e do professor Gosaart, da Faculdade de Sciencias de Bordeaux, que reune todas as condições desejaveis.

Esta lanterna foi experimentada, com exito, nas manobras do serviço de saúde em Toulouse, Bordeaux e outras.

A condição principal dessa lanterna é a invisibilidade do fóco luminoso, evitando, assim despertar ao inimigo pontos de alvo.

É de lastimar que não se podesse aproveitar os banheiros de campanha, de panno impermeável, que foram encommendados para a França, com a devida antecedencia e não chegaram a tempo de serem experimentados nestas manobras.

Este banheiro, quando enrolado, forma um volume de 1 metro de comprimento sobre 0,30 centímetros de diâmetro, pesa 8 kilogrammas e assemelha-se a uma padiola de campanha.

Nas futuras manobras serão experimentados, portanto, os banheiros de campanha, bem como os carros-reservatorios (com bomba, filtro e apparelho para esterilização d’agua) e o carro de medicina e cirurgia.

Seria conveniente que o kepi soffresse uma pequena modificação, durante as manobras, por julgar de melhor effeito, e que é o uso do guarda-nuca de brim, que, sendo uma peça de pequeno custo e fácil adaptação a qualquer bonet, presta o grande serviço de preservar o soldado da acção directa dos raios solares, que é tão incommoda e perigosa nos  dias quentes.

Parece-me de muita utilidade que os médicos, em suas prelecções praticas, feitas nos corpos, explicassem á uma praça escolhida noções de pedicuria, providenciando-se ao mesmo tempo para que, em cada ambulancia, exista uma carteira, contendo o instrumental, modelo A. Girardot, usado nesse serviço, cujas vantajens são evidentes.

Assim evitaríamos que algumas praças saiam de fórma, durante a marcha, levadas pelas dores que soffrem e outras usem botinas cortadas ou procurem descalçar-se, produzindo tudo isto um péssimo effeito.

Vem a propósito lembrar o que diz o medico militar francez dr. Lemoine — sobre as condições geraes de um bom calçado para o soldado, de modo a não magoar-lhe os pés: “o ideal seria confeccionar o calçado de accordo com o pé de cada um”.

Mas é fóra de duvida que temos de levar em conta também a qualidade do material empregado, a sua resistencia e a confecção cuidadosa do calçado – como muito bem ponderou o medico do exercito nacional, tenente coronel dr. Manoel Pedro Vieira, chefe do serviço de saude e veterinaria da 9ª região militar, no seu relatório das manobras de 1912, na fazenda dos Affonsos e apresentado ao sr. general dr. Antonio Geraldo de Souza Aguiar.

Imagens constantes do artigo:

18 01 1914 - Manobras da BM - Sv Saúde B

CACOLET – Meio de transporte de feridos ou doentes em terreno montanhoso

 

18 01 1914 - Manobras da BM - Sv Saúde E

LITEIRA – Outro meio de transporte de doente ou ferido, deitado

 

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 015, de 18/01/1914, página 5 – *mantida a grafia da época

 

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Manobras da Brigada Militar, em 1913 – Relatório do Serviço de Saúde – Parte I

A Federação, no dia 17 de janeiro de 1914, sábado, noticiava:

MANOBRAS DA BRIGADA MILITAR

SERVIÇO DE SAÚDE – 1ª Parte

Do relatório apresentado ao coronel Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar, pelo dr. Armando Barbedo, capitão-medico e que dirigiu o serviço de saúde nas ultimas manobras daquella milícia, nos campos do Gravatahy, extraímos as seguintes notas:

“Satisfazendo a nota contida na ordem de operações do estado-maior, n.5, de 7 de dezembro último, apresento-vos um relatório do serviço sanitario, correspondente ao período de manobras da Brigada Militar, que se realisaram no Cortume, campos de Gravatahy, sob vossa chefia, o que faço na qualidade de chefe do serviço sanitario, cargo que exerci durante aquellas manobras.

O pessoal sanitario desse serviço constou dos srs. capitães médicos drs. Cândido Ferreira dos Reis e Antenor Granja do Abreu, alferes dentista João Guilherme Ferreira, pharmaceutico adjunto Jonathas da Costa Ferreira, bem assim do enfermeiro-mor Thimotheo de Macedo Pires, cabos enfermeiros, padioleiros, conductores etc.

O material sanitario foi promptifiícado e enviado pelo Hospital do Crystal, constando de barracas, inclusive duas grandes barracas-hospitaes, modelo Tortoise, canastras ambulâncias inglezas, para medicina e cirurgia, caixas do socorros medicos-cirurgicos, modelo allemão, bolças dos padioleiros, cantis , supporta-padiolas, servindo de mesa de operações, em campanha, galhardetes com distinctivo do serviço sanitário da Brigada, filtros portáteis para água, padiolas modelo da Brigada Militar, mesas pequenas, leves e de fácil armação, material para expediente, camas, lanternas marítimas, cestas com roupas etc.

Este material foi conduzido, em carroças pequenas, de dous animaes e em cargueiros, a excepção da caixa de soccorros, que ia no carro ambulância conduzido pelo enfermeiro-mór.

Todo esse material chegou em bom estado ao acampamento, bem como as viaturas, o que demonstra ter havido ordem e cuidado durante o transporte.

Além das barracas do typo adoptado e usados pelas praças da Brigada Militar, foram armadas três outras de feitio especial: uma, destinada a isolar os doentes de molestias infecto-contagiosas, á frente da qual foi hasteada uma pequena, bandeira amarella, como distinctivo do isolamento e mais, duas outras barracas hospitaes.

Estas, eram grandes, de dupla abertura, modelo Tortoise, de construcção simples e sólida, de montagem e desmontagem rapida, muito leves, podendo accommodar trinta doentes, feitas de superior panno impermeável; nestas barracas póde-se andar sem curvar-se, por terem altura sufficiente ; existem em seus lados rectangulos, simullando janellas, cobertas de tecido transparente que deixa penetrar a luz indispensável durante o dia, quando fechadas as barracas; nos dias de muito calor pode-se arejal-as completamente ou em parte, sem ser preciso desarmal-as, levantando as suas faces lateraes, que são perpendiculares ao sólo.

Entre as vantagens destas barracas-hospitaes, destaca-sec a da dupla cobertura em cujo seio circula um coxim de ar, evitando o aquecimento do que se acha no recinto das mesmas; são de conducção fácil, por isso que póde cada uma ser transportada no dorso de um animal, facto este já previsto pelo seu constructor, que ensina a enrolal-a e dispôl-a para esse meio do transporte. As portas das barracas, quando abertas, ficam dispostas, de modo a formarem um toldo.

Em uma das barracas-hospitaes installamos a pharmacia e sala de operações. A outra barraca foi destinada á hospitalisação.

Em cada uma dellas foi hasteada uma pequena bandeira distinctiva do serviço sanitário da Brigada.

Estas barracas prestaram-se muito bem para a pharmacia e sala de operações, bem como por hospitalisação.

Barraca-hospital - 1913

Barraca-hospital – Modelo Tortoise – 1913

Foram experimentadas as padiolas, confeccionadas nas officinas da Brigada, que deram excellentes resultados, mostrando serem resistentes, commodas, leves de montagem e desmotagem facíllimas.

Como typo de padiola de campanha, parece preencher os fins a que se destina, pois é confeccionada de tal forma que, quando por accidente, se estragar qualquer das suas partes componentes, poderá ser facilmente substituída por material que se tem á mão em campanha.

As padiolas experimentadas, cuja nomenclatura penso organisar opportunamente, serviram também de leito para os doentes que estiveram hospitalizados a barraca-hospital e também no transporte de doentes e feridos simulados nos diversos exercícios de padioleiros que se realisaram.

Nas proximidades da ponte de pedra do Gravatahy, na occasião da chegada ao acampamento, o sr. capitão José Augusto Wellausen, do 1º Regimento de Cavallaria, que acompanhava a ponta da columna de manobra, tendo o cavallo em que montava rodado inesperadamente, saltou do animal com tanta felcidade que fracturou a perna direita. Foi elle promptamente soccorrido pelo sr. capitão dr. Antenor Granja de Abreu que, com solicitude e pericia attendeu-o convenientemente. Esse official foi removido para o hospital do Crystal e tendo sido acompanhado pelo enfermeiro-mór, o qual no dia seguinte regressou ao acampamento.

O sr. capitão Wellausen foi transportado em uma das padiolas supra-mencionadas, tendo se verificado que suas hastes devem ser feitas com madeira menos flexiveis do que a actual ; entretanto em um transporte longo como o que foi feito, a padiola mostrou ser bastante resistente, leve e commoda.

A Brigada Militar receberá por estes poucos dias uma encommenda feita para a França, de padiolas articuladas, padiolas Macquet e  Franck e outros modelos, ficando assim com diversos typos de padiolas, em experiências, a fim de poder adoptar definitivamente um dos modelos estudados.

Como typo de padiola de guarnição, a Brigada possue a de modelo do sr. tenente-coronel Claudino Nunes Pereira, assistente do material que, além desta padiola de sua invenção, imaginou e fez uma barraca para official, alias elogiada por pessoas competentes.
O estado sanitario foi magnífico.

Nos primeiros dias de acampamento, era bem regular o numero de consultantes mas, na sua maioria, tratava-se de casos de nevralgias diversas e cólicas intestinaes, males communs e explicáveis nos primeiros dias de acampamento, como se tem verificado nas manobras em geral.

Foram transferidas algumas praças doentes, da barraca-hospital para o hospital do Crystal mas eram portadores de pequenas affecções levadas da guarnição, occultadas propositalmente pelas praças.

No dia seguinte ao da chegada ao acampamento, o musico Edmundo Gomes da Silva adoeceu gravemente e, quando o sr. capitão médico dr. Candido Ferreira dos Reis chegou á barraca da referida praça, nada mais pôde fazer, porque esta havia fallecido, tendo o mesmo medico syndicado do fato, dando como causa provável da morte uma congestão cerebral. O cadáver foi transportado para uma barraca-isolamento e no dia seguinte, appós as formalidades precisas, foi sepultado.

No dia 6, ás onze horas da noite, tendo enfermado o sr. major Gregório Portuguez, do 2º Batalhão de Infantaria, foi attendido, em sua barraca, por mim e pelo sr. capitão medico dr. Cândido dos Reis.

O sr. major Gregorio foi, no dia seguinte, devido ao seu estado de saúde, transportado para Porto Alegre em companhia do sr. capitão dr. Cândido Reis e cabo de saúde Felisberto Francisco.

Influiu naturalmente, no magnifico estado sanitário, o local do acampamento, que era excellente.

Cada corpo estava acampado junto a um bosque, em lugar alto e dispondo de abundante e boa água.

Durante os dias quentes, as praças, quando em descanço, deixavam as suas barracas e aproveitavam-se da sombra e frescura do matto.

A pharmacia dispunha de material proprio de uma pharmacia de campanha.

Nada faltou. A pharmacia sempre esteve sob a direcção technica do sr. pharmaceutico Jonathas da Costa Pereira, profissional competente e trabalhador, tendo dado uma disposição esthetica e pratica ao material que lhe pertencia, facilitando, desta sorte, o serviço a seu cargo.

Foram inspeccionados de saúde, na barraca-hospital, dous officiaes e diversas praças, os primeiros por conclusão de licença e os segundos para engajamento.

No dia 4, foi dado signal de alarme, ás 3 horas da madrugada e, com urgência, providenciei para que o pesoal e material do serviço sanitário ficassem de promptidão, o que  effectivamente aconteceu.

Tendo o 1º regimento de cavallaria tido ordem para deixar o acampamento, em objecto de serviço, escalei para acompanhal-o o sr. capitão médico dr. Cândido dos Reis e o cabo de saúde Fellisberto Francisco, que levou comsigo as bolsas sanitarias e a mochila ambulancia. O 1º regimento partiu pela manhã, regressando á tarde. Informou-mo o sr. capitão dr. Reis não ter havido alteração durante esse serviço.

Conforme ordem superior realizou-se por ocasião do tiroteio em defesa ao ataque á guarda da frente do acampamento, um exercício de padioleiros, com o pessoal das bandas musicaes dos 1º, 2º e 3º Batalhões e da Grande Banda da Brigada, prestando-se os primeiros  soccorros medico-cirurgicos aos feridos e doentes simulados.

Estes exercícios foram realisados de accordo com o regulamento em vigor, na Brigada Militar.

(Continua)

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 014, de 17/01/1914, página 4 – *mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Graduado ferido é submetido a Exame de Sanidade, no Hospital da Brigada Militar.

A Federação, no dia 17 de janeiro de 1914, sábado, noticiava:

Secção judiciária – Fôro estadual

Exame de sanidade – Hoje, ás 7 horas da manhã no Hospital Militar da Brigada Militar, devera ser feito exame de sanidade na pessoa do sargento daquella milícia  Fulano de Tal**, que foi ferido ha dias, conforme noticiamos, por Beltrano de Tal**, de profissão ferreiro e que lhe vibrou um golpe, na cabeça, com uma barra de ferro.

Para se proceder a esse exame seguirão para alli, o dr. Hugo Teixeira, juiz districtal do crime, dr. Pitta Pinheiro, medico da Chefatura de Policia, e o escrivão João Vianna.

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 014, de 17/01/1914, página 2 – *mantida a grafia da época

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Hospital da Brigada Militar – 10º Aniversário – Discurso do Capitão Médico Armando de Mello Barbedo.

A Federação, no dia 03 de janeiro de 1917, quarta-feira, noticiava:

Festa no Hospital da Brigada Militar

Conforme promettemos em nossa edição de hontem, a seguir reproduzimos o discurso pronunciado pelo capitão medico dr. Armando de Mello Barbedo, por occasião da inauguração dos retratos do general Salvador Pinheiro Machado, vice-presidente do Estado, em exercicio, e tenente-coronel Affonso Emilio Massot, commandante interino da Brigada Militar, na sala do recepção do hospital daquella milicia estadual, no dia 1º do corrente mez.

“Ilmo. sr. representante do exmo. sr. General Salvador Pinheiro Machado, vice-presidente do Estado, em exercício, sr. dr. Protasio Alves, Secretario do Interior, tenente-coronel Affonso Emilio Massot, commandamte geral da Brigada Militar, srs. commandantes de corpos e meus senhores:

Hoje, ha 10 annos, pela ordem do dia n. 365, de 31 de dezembro de 1906, foi creado este estabelecimento, actualmenle denominado Hospital da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, por acto do  Governo do Estado e constante da ordem do dia nº 236, de 4 de agosto de 1911.

Foi creado pelo exmo. sr. dr. Antonio Augusto Borges de Medeiros, presidente do Estado, estando no commando geral da Brigada o então coronel José Carlos Pinto e na chefia do Serviço Sanitario o sr. capitão dr. João Dias Campos.

O nosso Hospital constitue, hoje, uma das repartições importantes da Brigada Militar, a qual, dia a dia vae se impondo, mais e mais, ao respeito e á consideração publica pela sua excellente organização, pela sua disciplina que tem sido a base solida do seu progresso. Essa força, pela qual o Rio Grande tem, na phrase de um notável republicano: “um affecto particular, affecto que vem de grande e terrível época em que soube ella derramar o sangue de seus soldados em defesa da República, nas coxilhas do Rio Grande, tingindo o verde das campinas de rubro”.

Prevalecendo-me desta data gratíssima para nós, que temos o orgulho de pertencer a uma corporação tão digna e prestimosa, tomei a iniciativa, como chefe interino do Serviço Sanitário, de inaugurar nesta sala, com a devida permissão do meu chefe, os retratos dos srs. General Salvador Ayres Pinheiro Machado e tenente-coronel Affonso Emilio Massot.

Essas duas individualidades distinctas representam um traço de união indestrutível da vida da nossa Brigada Militar, a que ambos estão vinculados por serviços inesquecíveis, importantes, que constituem um belo patrimônio moral, guardado com zelo e carinho dos bons patriotas rio-grandenses.

Sem atribuições nem intenção de balancear os serviços valiosos que já prestou diretamente á nossa Brigada o sr. general e os está prestando o actual comandante, seja-me permitido, todavia, dizer que esses serviços estão em relevo na consciência de todos nós que admiramos com respeito o solícito interesse nos atos daquele que sempre trata de melhorar a situação da Brigada Militar e o especial zelo e dedicação consciente do nosso comandante geral cujo tino militar tive a ocasião de ver consagrado por opiniões de competentes, imprimindo ainda á sua administração o cunho brilhante do seu espírito progressista e organizador.

Estes dous representantes genuínos dos mais dignos servidores militares do nosso Rio Grande, não limitam seu glorioso passado ao conjunto generoso de sua acção guerreira: a fé republicana e a lealdade política aninharam-se sempre no coração de ambos e foram postas em evidencia por actos nobres de caracter que não preciso aqui rememorar.

Elles estão gravados indelevelmente na história republicana do Rio Grande!

Tornar-me-ia prolixo, se fosse citar todos os feitos de valor e abnegação patriótica deste leaes servidores da Republica Brazileira.

Os lugares que os retratos de ambos vão ocupar na galeria desta sala, ao lado de alguns de seus antigos companheiros  de luctas politicas e guerreiras, já os esperavam há muito tempo.

Este acto é uma homenagem justíssima.

Sem esquecer os progressos realizados na vida interna do Serviço Sanitário da Brigada, devo consignar aqui os de elevado alcance, que foram obtidos no actual exercício do exmo. Sr. General vice-presidente e no comando do sr. Tenente-coronel Massot: a expedição do Regulamento para os Internos deste Hospital (decreto n. 2.157, de 21 de setembro de 1915) e a creação de um Posto Médico no Quartel de Infantaria (ordem do dia n. 62, de 1º de julho de 1915), cujas vantagens sanitárias e econômicas têm sido provadas na prática quotidianamente, prestando inestimáveis serviços com mínima despeza, conforme eu previra.

Chegou o dia de realizar-se outro importante melhoramento para este Hospital e para o Serviço Sanitário em Geral: a creação do Curso Prático de Enfermeiros e Padioleiros, que acaba de ser feita pela sr. Commandante Massot.

Estou de parabéns, com todos aquelles que servem na Brigada, sob minha chefia interina.

Seja-me permitido ler aqui a cópia do officio que dirigi ao sr. Comandante Massot, referente ao Curso de Enfermeiros e Padioleiros da Brigada Militar. Ei-lo:

“Ilmo. Sr. tenente-coronel Affonso Emilio Massot, d.d. comandante geral da Brigada Militar.

Com prazer venho submeter ao vosso elevado critério e deliberação o incluso regulamento que organizei para a creação de um Curso Pártico de Enfermeiros e padioleiros da Brigada Militar, anexo ao Hospital. Relevae que, em abono desse melhoramento de alto valor para o nosso serviçoeu deduza as seguintes considerações: A creação deste Curso, impõe-se como importante melhoramento de resultados practicos e reaes. O preparo de enfermeiros e padioleiros como profissionais competentes trará vantagem incontestável para o Serviço Sanitário da Brigada Militar.

Nos grandes hospitais, quase em sua totalidade, há Escolas de enfermeiros, onde são eles preparados e habilitados na technica indispensável, não só para o serviço hospitalar, como para o domiciliário, de modo que se tornam bons auxiliares dos médicos no serviço sanitário militar, podendo ainda, fora dele, servir-lhe de profissão de meio de vida em casa de saúde, sanatórios civis, lazaretos ou outros estabelecimentos congêneres. Tal creação terá, indubitavelmente, bons resultados imanentes que ressaltam sobremaneira, considerando que, em geral, o cargo de enfermeiro é confiado a indivíduos cujo tirocínio foi adquirido accidental e incompletamente no convívio forçado do Hospital, onde estiveram por longo tempo em tratamento, devido, quase sempre, a moléstias chronicas que lhes roubaram do organismo a robustez physica indispensável e a atividade, condições tão preciosas para o desempenho desta profissão. Isto é o que se dá nos hospitais civis, nos quaes a situação destes indivíduos é, até certo ponto, suportável. Num hospital militar, são escolhidos, ordinariamente, para tal fim, homens sadios mas sem os conhecimentos technicos indispensáveis, que facilmente poderão adquirir, uma vez submetidos ás normas de de um curso, embora modesto como o nosso, que ora proponho e cuja utilidade vos digneis verificar.

Para por em relevo e facilitar o juízo seguro sobre o valor profissional do enfermeiro, cujas funções são mais elevadas do que parece á primeira vista, citarei as honrosas referências feitas pelo notável médico que honra a França, dr. Maurice Letulle que diz: “O enfermeiro e solícito, consciencioso e abnegado, é um auxiliar indispensável na vida social; ricos e pobres, pequenos e grandes, todo mundo passa por suas mãos; cada um, por seu turno, tem necessidades dos seus serviços, dos seus cuidados. A assistência aos enfermos, seja particular ou pública, encontra no enfermeiro o instrumento fundamental de sua beneficência. É preciso, pois, educa-lo de uma maneira irreprehensivel de conformidade com os dictames da sciencia, da medicina e da hygiene modernas”.

Bastam os conceitos ponderados e justos desse ilustrado medico para evidenciar o enorme incalculável serviço que a creação do Curso Prático de Enfermeiros e Padioleiros prestará á nossa Brigada Militar, cuja secção de enfermeiros poderá ser constituída de pessoal competentemente instruído e apto para as suas funções.

Quando submeti á sua elevada deliberação o regulamento do Curso em questão, tinha plena certeza de que seria aceito de bom grado, porquanto conheço o seu hábito de estudar e resolver os assuntos a ele submetidos.

A creação desse curso, indubitavelmente, é uma iniciativa de grande alcance, tornando os seus enfermeiros e padioleiros profissionais idôneos, enaltecendo, assim, o Serviço Sanitário da Brigada Militar, que terá, então a sua secção de Enfermeiros composta de profissionais habilitados e as diversas unidades terão em seus quartéis homens aptos para desempenhar a profissão de enfermeiros ou padioleiros, quando, de momento, houver necessidade.

Para tal certamen, pode-se contar com o concurso valioso dos officiaes de saúde da Brigada, que sabem muito bem dos relevantíssimos serviços que tem prestado na guerra Européia o serviço sanitário e o valor merecido que lá lhe dispensam os governos, convictos de sua grande utilidade e vantagens.

Não é uma inovação e creação de Escolas de Enfermeiros.

Já em 1798, o dr. Valentim Siemann instituira um ensino especial para enfermeiros junto ao Hospital de New York.

Em 1928, Elisabeth Try, tivera o mesmo procedimento para com os enfermeiros do Guy-Hospital de Londres. Appareceu depois, miss Florence Nightingale sobre a qual refere-se o médico chileno, dr. Moysés, da seguinte forma: “Miss Florence Nightingale pode ser considerada, com justiça, como a verdadeira credora das escolas de enfermeiros.

Nasceu ella em Florença, em 1820, era filha de paes ilustres, possuía sentimentos tão nobres, tão elevados e abrigava um coração tão bondoso e terno que não podia ver a desgraça alheia sem sofrer grande pezar. Sendo jovem, de formosura pouco comum e dotada de grande fortuna, renunciou a vida social e aos attractivos da família para consagra-se ao cuidado dos enfermos. Apenas contava vinte e cinco anos de idade quando emprehendeu uma excursão pelos países do mundo civilizado com o fim de estudar as melhores condições de assistência hospitalar.

Digna de recordação é a  participação que Florence Nightingale tomou na Guerra da Criméia. O governo inglez confiou-lhe a direção absoluta do pessoal feminino enviado ao coampo de batalha para soccorer aos enfermos e atender aos feridos. Tão habilmente soube ella desempenhar-se do seu importante papel que bastará dizer, mediante seus acertados trabalhos, fez descer a mortalidade das ambulâncias inglesas de 60% que antes eram de 2,21%.

Este esplendido resultado deve indubitavelmente, ser attribuido á inteligente direção de Florence Nightingale, á implantação vigorosa dos princípios de hygiene, á constante vigilância da diretora e á abnegada dedicação de suas subalternas.

Esta reduzida cifra de mortalidade inglesa contrastava com a excessiva mortalidade dos exércitos francez e russo. Esta obra realizada com tanto brilho nas ambulâncias inglesas de á Miss Florence Nightingale um nome honroso muito maior, porém, foi a fama que ella adquiriu nos hospitais do seu paíz, organizando os serviços e estabelecendo definitivamente as escolas de enfermeiros. Ella foi quem primeiro demonstrou praticamente que um enfermeiro bem educado e instruído é um colaborador indispensável do médico.

Aconteceu a Miss Florence Nightingale o que sempre sucede aos que implantam reformas transcendentes ou de alta importância: Foi combatida energicamente; mas logo os ataques cessaram em vista dos magníficos resultados obtidos e teve-se de confessar que a sua recente creação era um verdadeiro bem público.

Em reconhecimento de tão assignalados serviços a Inglaterra ofereceu-lhe, por subscrição popular, a quantia de 10.000 libras para que fundasse o primeiro instituto de enfermeiros profissionais. Este foi instalado no Hospital de São Thomaz, em Londres (370 leitos), e começou a funcionar com toda a regularidade no anno de 1860.

A contar desta data a creação de Miss Florence Nightingale tem continuado a desenvolver-se e a prosperar.

Actualmente existem na Inglaterra mais de 500 escolas. Nos Estados Unidos da América do Norte, funcionam 1.200 escolas officiaes de enfermeiros. O dr. Bourneville foi o iniciador dessas escolas na França.

E assim tem sido grande a propaganda com feliz êxito na Allemanha, Hollanda, Suéecia, Noruega, Japão, etc., onde as escolas de enfermeiros são organizadas com todo o conforto. Na Republica Argentina, em Buenos Ayres, a dra. Cecilia Grierson creou a escola de enfermeiras, em 1875. Esta instituição tem prestado relevantes serviços ao público de Buenos Ayres. Em 1902, foi creada no Chile a primeira escola no Hospital São Borja, pelo medico chileno Eduardo Moure.

No Rio de Janeiro, a Cruz Vermelha Brazileira creou a Escola Pratica de Enfermeiros no dia 10 de março do corrente anno, cuja licção inaugural foi proferida pelo dr. Getulio dos Santos, o qual, com os doutores Estellita Lins e Souza Ferreira compõem o corpo de professores daquela escola. O dr. Getulio dos santos termina a sua bela e magistral licção dizendo: ‘Finalmente, são mandamentos que devem fazer parte da cartilha de todo bom enfermeiro, isto é daquele que quiser inspirar confiança, essa confiança que é o primeiro allívio que se pode dar aos que sofrerem, na frase do professor Hartmann, as seguintes qualidades:

1º – Ter um bom temperamento, isto é, esforçar-se por ter o mesmo humor, a mesma paciência, muita calma;

2º – Ser amável, delicado, zeloso, corajoso, disposto a suportar sacrifícios e dissabores, por vezes inevitáveis, na presença dos enfermos, cujos caracteres são tão bizarros;

3º Junto dos enfermos, não mostrar indiferença na expressão da physionomia; eles são impressionáveis e sabem ler nos olhos dos que os tratam tudo que lhes diz respeito …;

4º – De mão leve e firme, ter carácter decisivo, ser obediente, respeitoso e pontual;

5º – Nunca se dirige ao enfermo como chefe ou superior e sim como guia e amigo bondoso; uma palavra amável, um sorriso, evitam as vezes a cólera ou a explosão de violências;

6º – Evitar qualquer excesso de intimidade ou familiaridade com os enfermos; ser seu servidor, com autoridade e afeto;

7º – Não ser apressado nem vagaroso ou desajeitado, más qualidades que dão ao enfermo uma impressão dolorosa;

8º – Fallar sempre a verdade para merecer a confiança de todos;

9º –  Não fallar demais, não tratar de sua saúde com os enfermos e respeitar os companheiros de trabalho;

10 – Mostrar sempre satisfação em prestar qualquer serviço aos enfermos e atender com indulgência as reclamações, tendo em consideração que, segundo as palavras de Shakespeare, “Deixamos de ser nós mesmos quando a dor physica nos domina”.

São os enfermeiros dotados de todos esses admiráveis predicados que, na expressão do dr. Hamilton “transformam a atmosfera hospitalar; graças a eles o hospital deixará de ser um lugar de pavor, um soccorro que faz horror, para onde os humildes da terra só se deixam levar pelo excesso da dor”.

A creação do nosso curso trará, forçosamente, vantagens incontestáveis para o Serviço Sanitário da Brigada e o que desejamos é que ele seja duradouro, porque assim teremos os nossos enfermeiros militares profissionais competentes.

André Tudoso, escrevendo sobre o valor dos padioleiros, diz; “Os padioleiros, na galeria dos heróes têm direito a um lugar de honra.”

O padioleiro deve ser forte, ágil, criterioso e valente.

Desarmado, atira-se á frente do inimigo, sem usar da carabina ou das granadas no campo de batalha.

Referindo-se a uma ambulância que figura na primeira linha, a 900 metros do inimigo, num território próximo a Liége, e que dispunha de 600 padioleiros, conta actos de bravura dos padioleiros, dos quaes eu cito o seguinte: “Uma manhã, pelas 10 horas, , disse-me, o comandante dos caçadores comunicou-me  pelo telefone que, havendo explodido um fortim construído na linha de frente, para abrigo das metralhadoras, dez homens que se achavam próximo estavam inutilizados. Cinco haviam morrido e os cinco restantes estavam gravemente feridos; era necessário recolhel-os e, para isso, tinham uma hora e meia, pois ao meio-dia devia se atacar o inimigo.

Reuni os meus homens, ás ordens do ajudante da ambulância. Dez padioleiros destemidos! Exclamei. Depois de lhes ter transmitido as ordens do coronel, acrescentei: “É necessário passar, custe o que custar”. Se os dez primeiros voluntários morrerem, devem estar preparados outros dez, na orla do bosque”.

O ajudante fez a continência e respondeu; “- Passaremos!”

Ás 11 e 30 o ajudante estava de volta com os cinco soldados feridos. Felicitei-o. Oh! Respondeu, foi empresa fácil; sinto, porém, comunicar-lhe que dois dos nossos camaradas morreram. Nós trouxemos os seus cadáveres; e, sem entrar em outros detalhes, um tanto pálido, retirou-se.”

No dia seguinte, chegou á ambulância um capitão ferido, que me disse: “Você tem sob suas ordens homens de valor extraordinário; em minha trincheira os quizera ter assim; sobretudo o ajudante, que é valoroso. E, por sua vez relatou: “ – Os dez padioleiros e seu comandante apresentaram-se na primeira linha. Recebi-os. Deram-me conta da delicada missão que ali os levara. Não saiam, disse-lhes. O fogo é terrível e incessante e a aventura pode custar-lhe a vida, proibindo-os de avançarem. O ajudante retorquiu: Pertencemos ao serviço médico. Nosso major chefe ordenou que fossemos recolher os feridos do fortim “custasse o que custasse”, e logo acrescentou a famosa frase: – por onde passarem os caçadores, passaremos também, meu capitão. E tocando um apito lançou-se á testa de seus homens. Sessenta metros, em terreno descoberto, furiosamente varrido pelas metralhadoras, tinha de ser transpostos. O pequeno grupo sobre, salta, cae, arrasta-se .. e passa. Na trincheira inimiga os alemães os vê surgir, com espanto e admiração. O official alemão grita em bom francez: “isso que estão fazendo é uma temeridade: não voltarão.” E, de facto, o mais difícil era o regresso. Não obstante a ameaça, seguida de execução, voltaram ás linhas francezas, carregando, cada um, sobre os hombros, um ferido ou um morto. O ajudante de pé, sem outra arma além do seu rebenque, dava ordens a seus comandados, calmamente, debaixo do fogo inimigo. Dois padioleiros morreram. O ajudante carregou, então, os soldados primeiro e, logo em seguida, os seus subordinados, sendo nesse trabalho atingido por uma bala que lhe atravessou um braço.

Meus senhores. É tempo de terminar.

A nossa presença aqui representa três actos que dignificam a existência útil da nossa Brigada Militar: Uma justa homenagem ao exmo. General Salvador Pinheiro Machado e comandante Massot, a comemoração da data em que se fundou este estabelecimento e a inauguração do Curso de Enfermeiros e Padioleiros.

O coração inteiro da Brigada Militar, através da satisfação emanada da solenidade aqui realizada hoje com um fim tríplice, tem, forçosamente de lembrar-se daquele cujo nome é um lábaro precioso que nos guia os passos, fortalecendo as inspirações do nosso patriotismo: Julio de Castilhos, o imortal creador da Brigada Militar. A ele, sempre e sempre a nossa gratidão e profundo repeito.

Tenho dito.”
*Mantida a grafia da época.

Fonte: Jornal A Federação, Ano XXXIV, edição 003, de 03/01/1917, quarta-feira, página 2