MUSEU ABERTO: 9:00 às 17:30. Aberto todos os dias

R. dos Andradas, 498 - Centro

Porto Alegre/RS

PATRONO PERPÉTUO

JOSÉ HILÁRIO RETAMOZO, poeta de uma geração.
JOSÉ HILÁRIO RETAMOZO

Pércio Brasil Álvares

Síntese biográfica baseada em pesquisa bibliográfica e entrevista pessoal publicada em homenagem aos cinquenta anos dedicados por J. H. Retamozo à poesia do Rio Grande do Sul.

Não é tarefa simples falar sobre José Hilário Ajalla Retamozo, sua vida e sua obra.

Além de poeta renomado no seio da sociedade sul-rio-grandenese e de uma vida dedicada à Brigada Militar como profissional de segurança pública, José Hilário Retamozo é o construtor de uma obra que marca indelevelmente o cenário cultural gaúcho pela diversidade e versatilidade.

Nosso ilustre biografado nasceu em 1940, lá pras bandas de São Borja e se criou nas cercanias da cidade como “piá” que ajudava os pais no “bolicho” de beira de estrada, onde toda a família trabalhava.

Ajudava a organizar “cancha de carreira” nos finais de semana, o que era uma das atividades mais tradicionais da campanha gaúcha, naquele tempo que já vai distante na memória.

Ainda na infância, aprendeu a lida campeira quando, durante as férias da escola, ia para uma estância no interior de São Borja, nas redondezas do Rincão dos Cento e Um, onde vivenciou os afazeres de peão de estância.

Foi em São Borja, também, que se iniciou na escola onde concluiu os estudos ginasiais em 1956. Três anos antes, em 1953, conheceu Aparício Silva Rillo que, à época, já era poeta renomado no Rio Grande do Sul e do qual se tornaria grande amigo, recebendo influências e incentivo para sua formação poética.

Ainda garoto, tomou gosto pela poesia vindo a ganhar seu primeiro prêmio em concurso, na própria escola, quando frequentava o curso ginasial.

Daí por diante, sua vida foi num crescendo de experiências e aprendizado até se tornar um dos grandes poetas do Rio Grande do Sul que, no dizer do próprio Aparício Silva Rillo, pode ser identificado como o último poeta de vivência genuinamente campeira de nosso Estado.

A notoriedade na poesia regionalista viria em 1966 quando conquistou o primeiro lugar no concurso de poesia do Rodeio de Vacaria, concurso este no qual se classificaria em segundo lugar, nada mais, nada menos, do que o grande pajador Jaime Caetano Braun, que, àquela época, já era uma lenda viva da poesia campeira do Rio Grande.

Em 1969, em Santana do Livramento, editou o seu primeiro livro, “Reduto de Bravos”, seguindo-se “Rodeio do Tempo”, “O Dois de Ouro em Rio Pardo”, “Lua Andarenga”, “Provincianas”, “Canto Livre”, “Trovas e Trovões”, “Décimas e Milongas”, “Cantos Provincianos”, “Alegrete em Quatro Poemas”, “Rodeio Crioulo”, “Canto de Amor a São Borja” e “Garruchas Cruzadas”.

Em parceria com a esposa Aldira Correa Retamozo, escreveu “Abecedário Leonistico”, “ABC do 4º Dia” e “Rodeio Geral”. Os prêmios em festivais de música nativista do Rio Grande do Sul também foram muitos. O primeiro deles veio em 1974, quando obteve a premiação de duas músicas na 4ª Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, conquistando o troféu Calhandra de Ouro, de 1º lugar, com a “Canção dos Arrozais”.

Conquistou, também, três prêmios consecutivos de pesquisa nessas Califórnias de Uruguaiana.

As músicas em co-autoria também foram muitas, contando-se, dentre muitos outros parceiros com nomes consagrados, Elton Saldanha, Everton Ferreira, Marco Aurélio Vasconcellos, Pedro Guerra e Juarez Chagas.

Mas, o que principalmente realiza um poeta é a alegria de ter captado a essência do sentimento popular, colocando-o na poesia de canções antológicas como “Pilão” (sucesso na interpretação de Eracy Rocha) e “Poncho Molhado” (interpretada pelo conjunto “Os Serranos”), as quais, com certeza, permanecerão gravadas para sempre na memória e no coração do povo gaúcho.

O ativismo cultural de José Hilário Retamozo no Rio Grande do Sul é singular, pela intensidade, pujança e diversidade. Foi um dos sócios fundadores da Estância da Poesia Crioula, criada em 1957, com a participação de nomes de relevo da cultura local, tais como Hugo Ramires, Chico Ribeiro, Jaime Caetano Braun, Walter Spalding, Sandário Santos, Glaucus Saraiva, Barbosa Lessa e Paixão Cortes. Foi eleito para a presidência dessa entidade no ano do tricentenário de São Borja, por ocasião do 26º Rodeio dos Poetas Crioulos do Rio Grande do Sul.

Em 1989, foi eleito para a Academia Rio-Grandense de Letras, ocupando a cadeira cujo patrono é um dos nomes mais importantes da literatura brasileira: Alceu Wamosy, poeta que faleceu muito jovem, quando era Alferes do 1º Corpo Provisório da Brigada Militar, durante a Revolução de 1923.

Na posse de Retamozo como imortal das letras gaúchas, o discurso de acolhida foi proferido por outro ilustre brigadiano de renome como historiador, pesquisador e escritor, o Coronel Hélio Moro Mariante.

Mas José Hilário Retamozo é essencialmente um brigadiano. Ingressou na Brigada Militar muito jovem. Foi recruta no antigo Centro de Instrução Militar, foi sargento por um período razoável e depois ingressou no oficialato. Em suas andanças pelos caminhos da Brigada Militar fez, nada menos do que dezessete mudanças percorrendo o interior do Estado, tendo a seu lado a esposa Aldira, com a qual casou em 1968 e teve cinco filhos.

Quando já estava no posto de Capitão, transferiu-se para Porto Alegre, exercendo funções em várias unidades da Brigada Militar na Capital.

O ano de 1986 foi particularmente marcante em sua vida na Corporação, pois naquele ano foi criada a Comissão Literária do Sesquicentenário da Brigada Militar, cuja presidência lhe coube, resultando, do trabalho dessa Comissão, até o final de 1987, a edição de mais de vinte livros que constituiram a Coleção Sesquicentenário da Brigada Militar.

O sucesso editorial foi tamanho que, por decisão do Comando da Brigada Militar, aquela comissão provisória foi instituída em caráter permanente, passando a denominar-se Comissão Editorial da Brigada Militar, que, ao longo de sua existência, editou aproximadamente cinquenta títulos. Nessa atividade José Hilário Retamozo destacou-se como editor, livreiro e organizador de obras, dentre as quais as 1ª e 2ª Antologias de Poetas Brigadianos, publicação essa que se tornou tradicional, contando com outras edições sucessivas posteriores, também por ele organizadas, mesmo após a extinção da Comissão Editorial da Brigada Militar.

Nessa mesma época, foi idealizada, por Retamozo, a criação de uma Associação de incentivo à editoração na Brigada Militar, obra que foi concretizada com a participação de um grupo engajado na luta pelo desenvolvimento cultural brigadiano, tendo como principal articulador do empreendimento o seu sempre presente parceiro de lutas Vanderlei Martins Pinheiro, Tenente-Coronel da Reserva da Brigada Militar, hoje diretor do Jornal Correio Brigadiano. Essa entidade recebeu a denominação de Associação Pró-Editoração à Segurança Pública – APESP, tendo Retamozo eleito como seu primeiro presidente e reeleito para o mesmo cargo em várias gestões.

Depois de transferir-se para a Reserva da Brigada Militar, em 1991, como Coronel, teve, ainda, uma passagem pela direção do Instituto Estadual do Livro, onde empreendeu a edição de várias obras de literatura e folclore gaúcho, como foi o caso de “Tentos e Loncas”.

Ao reexaminar de perto a obra de José Hilário Retamozo, podemos ter a certeza de que nenhum outro poeta insculpiu, em sua poesia com tanta intensidade, o sentimento do brigadiano, ao escrever páginas antológicas retratando o quotidiano da vida corporativa, tais como: “De Braços Abertos”, “Democracia” e “Compromisso”. Além disso, Retamozo também foi o letrista de inúmeros cânticos militares, como a célebre “Canção Olímpica da Brigada Militar” e de diversas outras canções de Unidades da Corporação.

O nosso Patrono, imortal pelas letras, pelo trabalho e pelo ser humano inigualável que sempre foi, faleceu em Porto Alegre em 2002 e está sepultado no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia na Capital Gaúcha.

A seguir, exemplos significativos da obra de José Hilário Retamozo:

COMPROMISSO

Todo aquele que tem o nome inscrito
Neste teu livro por ter tido a sorte
De ter jurado até enfrentar a morte
Por teu amor que é mais do que infinito;

Todo aquele que cumpre com o rito
De ser dos teus e pelos teus mais forte;
Que te seguir onde estiver teu norte
E obedecer ao que estiver escrito;

Todo aquele que honra a própria espada
Com que jurou por teu amor, Brigada,
E ao teu serviço, inteiro, se entregou,

É um oficial e enquanto vivo for
Há de ser um fiel continuador
Da obra inacabável de Massot.

DE BRAÇOS ABERTOS

Há um homem fardado
de braços abertos no meio da rua.
De noite ou de dia há um homem fardado
de braços abertos no meio da rua.
Um homem de braços abertos
é mais do que uma cruz em movimento.

No meio da vida, no meio da noite,
no meio da rua há um homem fardado
de braços abertos. A cruz é missão,
é serviço de guarda, é trânsito intenso,
é o homem de farda que tem compromisso
e assume o serviço de ser proteção.

Na chuva, no sol, no tempo inclemente,
no dia mais frio, na tarde mais quente
o homem fardado de braços abertos
é sempre uma oferta, uma eterna doação.

E um dia acontece a violência do mal:
o homem fardado de braços abertos
no meio da rua – seu altar de holocausto –
perece crucificado, também...

Mas quando amanhece,
outro homem fardado no meio da rua,
no mesmo local, caminha sereno
de braços abertos e assim permanece...

Há um homem fardado
De braços abertos no meio da rua.

MARAGATO LOUCO

Andava de pago em pago
teimando em querer um lenço,
mas diz que mais colorado
do que boca de sangria.
Assim, o pobre do Chicho
bebia por seu capricho
louqueando a falar sozinho.

Aos domingos, no bolicho,
a uma ponta do balcão,
olhava a todos com olhos
de quem vê, não a figura,
porém alma e coração.

Os olhos vendo mais longe,
nas distâncias encardidas
que a vontade, por desejo,
faz a memória gravar.

Às vezes o pobre Chicho
louqueava que era o chefete
de grande revolução.
Uma tala de coqueiro
fazia vezes de espada
e ele imitava arrancadas
e cargas e rechaçadas
volteando a espada na mão.

Depois parava bem quieto,
olhar surrado e aflito,
a mão nervosa estendida
fazendo gestos no ar.
Rompia então em soluços
e gritos desesperados:
- “ E o lenço dos colorados?
- E o lenço dos colorados?
Eu quero um lenço pra mim,
que é pra levá-lo ao pescoço
quando chegar o meu fim...”.

Mas ninguém ligava ao Chicho
nem seus pedidos ouvia.
Assim, o pobre vivia
cercado por todo mundo
- mas dentro dele, solito -,
pois que o seu mundo era o sonho
de ter um lenço encarnado
que nem boca de sangria.

Uma feita... era domingo,
havia grande carreira
- gaúchos de toda parte
e chinas do vizindário.
E no meio dessa gente
veio até um “mala cabeza”,
castelhano calaveira
fugido de comissário.

Parou na ponta da cancha
bem desconfiado o paisano,
pois, pra quem anda fugido,
até um olhar distraído
parece perseguição.
Estava pronto pra tudo
- o pingo preso nas rédeas
e a faca junto da mão.

O pobre do Chicho louco
andava de ponta a ponta,
pedindo a todos que via
o sonho dos seus desejos,
que era um lenço colorado
que nem boca de sangria.
O pobre do Chicho pedia,
mas ninguém sabia dar.

Foi chegando para o lado
donde estava o castelhano.
Chegou, bateu-lhe nas costas,
e ao querer pedir o lenço
a faca do castelhano
cortou-lhe a voz e a garganta.

O Chicho rolou no chão.
De costas, olhos vidrados
e a mão direita crispada
sobre o lenço imaginário
que tanto e tanto queria.

Até parece mentira
o que nos reserva a sorte:
- o Chicho encontrando a morte
teve o lenço que sonhou...
O sangue quando jorrou
do louco assim degolado,
jorrando vermelho e morno,
em seu pescoço o contorno
riscou de um lenço encarnado.


PATRONO PERPÉTUO

PANEGÍRICO A JOSÉ HILÁRIO AJALLA RETAMOZO
PANEGÍRICO A JOSÉ HILÁRIO AJALLA RETAMOZO

Em 29 de setembro de 2005, às 17,00 horas no Solar dos Câmaras, Rua Duque de Caxias, 968, em Porto Alegre, a Academia Rio-grandense de Letras, homenageou a memória do extraordinário acervo de nosso Cel. Retamozo, que lhe ocupava a Cadeira nº40, através de Sessão Solene.

Redigido pelo Irmão Marista Elvo Clemente, Presidente da Academia, o Panegírico é um gênero de retórica destinado a expressar louvor a alguém, a pessoa que realizou ações e fatos causadores de benefícios para a família, para alguma instituição, para a sociedade. A Academia Rigrandense de Letras tem em seu Estatuto a norma de exaltar os feitos literários de sócio que buscou a imortalidade além dos páramos terrenos.

Este panegírico recorda e celebra a vida e a obra do Acadêmico José Hilário Ajalla Retamozzo, enaltecendo sua vida e obra.


PATRONO PERPÉTUO

A VIDA

José Hilário nasceu em São Borja/RS, em 13 de janeiro de 1940, de família tradicional de origem hispânica pela mãe e italiana pelo pai.

Teve uma infância como todos os meninos daqueles anos em que na Europa e na Ásia trovejavam canhões e mísseis e sibilavam nos céus artefatos de morte e destruição. n pacata São Borja de largo horizontes e de águas tranqüilas e vastas do rio Uruguai, a vida seguia o seu ritmo vivaz de uma infância e adolescência, dedicadas aos estudos primários e secundários da escola. As aventuras nas barrancas e nas águas perfaziam parte do programa de vida daqueles meninos e rapazes. No livro Canto de Amor a São Borja, na orelha da capa, aparece depoimento autobiográfico: "Da biografia do Apparício Mariense, realização do Fernando Otávio Miranda O´Donnell, o Nando, que junto comigo e de outros de nossa idade e tempo, recebeu a primeira comunhão das mãos do saudoso Petit-Jean. A mãe do Nando reuniu os comungantes para oferecer chocolate quente ali na casa defronte à praça da cidade velha..."


PANEGÍRICO A JOSÉ HILÁRIO AJALLA RETAMOZO

No poema Memória do Tempo em dez estrofes irregulares, fez tocante homenagem a seu pai quando de seu aniversário a cinco de fevereiro de 1958, de que destaco os últimos versos: Ficaste homem mais cedo,/adquiriste o segredo / de envelhecer num só dia //. / Mas eu te vejo ainda forte / dando rodeio aos tiranos / que ainda estão entrincheirados / para pelear contra ti. / E a morte por onde ronda? / Um passo a frente e respondes: / Dêxa no mas que ela venha,/ eu não recuo daqui!"A coragem paterna indômita ficou-lhe na alma unida ao amor carinhoso sensível materno. No poema Mãe (1ª Antologia de Poetas Brigadianos) com alguns versos mostra seu afeto; A roupa do colégio ao tempo certo, / seu olhar me acompanhando pela rua, / olhar que ainda me segue vida em fora, / olhar de puro céu e luz de amor. / A minha mãe que se conserva antiga, / ainda consegue me fazer criança! /.

Uma voz interior o chamou para a capital do Rio Grande do Sul, ia entrara aos 17 anos na gloriosa Brigada Militar. O jovem habituado às lides da fronteira não estranhou a vida, a disciplina da Academia. Tudo para ele era preparação de vida para o seu ideal de jovem que abraçara com todo o vigor e zelo uma carreira que devotava o tempo para o bem de um povo, de uma cidade, de um estado e do Brasil. Ser Brigadiano, eis o ideal, eis o horizonte de uma vocação onde poderia doar a vida para que outras vidas tivessem mais segurança, mais paz. A glorificação da carreira vem explicitada pelo poema ABC do Brigadiano de que se privilegia neste momento a letra Z:

Zelar pelas atitudes
E pela própria conduta,
Manter com zelo uma luta
Para ser bom policial.
Assim, no bem contra o mal,
Todos cumprimos o rito
Que do zero ao infinito
Vai ao zênite do ideal.

(Antologia de Poetas Brigadianos, 3ª Ed. (P.56)

Patrono Perpétuo

Realizou cursos, estágios, ocupou cargos dentro da Corporação. Sempre às ordens do Comando de seus superiores chegou ainda antes dos sessenta a Coronel, grau máximo da sua carreira. Reformou-se pouco depois por mérito de serviços prestados. A pessoa de José Hilário era modelar e referência entre seus subalternos. Espírito militar de disciplina e de retidão, jamais abdicou de sua sensibilidade e das virtudes humanitárias que dignificam o cidadão.

Em sua caminhada por este Rio Grande, pela fronteira e pelo planalto, encontrou o anjo de sua vida, em Sant´Ana do Livramento - a jovem poetisa, advogada Aldira Correa. O casal ao longo dos anos floresceu com cinco filhos, tornando o lar aquele recanto divino-humano do amor, de alegria, de dificuldades e de temores superados pela paciência e mútua compreensão. Ao glorificarmos José Hilário, glorificamos de modo especial Aldira, objeto de Ofertório no Canto de Amor a São Borja:


Aldira,
Em teu louvor eternos estribilhos...
Eu te sou grato pela vida inteira
Não só por seres boa companheira,
E sim porque és a mãe de nossos filhos.

Em Rodeio do Tempo, dedicou:
A minha esposa
- Aldira Corrêa Retamozzo -
Afirmação de meus dias de luz de meu
Encantamento pelos valores positivos da humanidade.

Tudo andava bem quando surgiu no horizonte nuvem negra da diabete e do mal de Alzheimer. Foram anos de tribulação para o valente soldado e para sua família. A compreensão da esposa e dos filhos permitiu que carregasse a pesada cruz até o momento da chamada à casa paterna dos mortais; de Deus viemos para Deus voltamos... Isso aconteceu no dia 19 de setembro de 2004. Tivemos um 20 de setembro, diferente entre lágrimas e preces de esperança, animando os corações na orfandade.


A OBRA:

Os jornais de 20 de setembro, no obituário salientaram o poeta e compositor do tradicionalismo, o adeus ao poeta. Novamente a poesia é a marca da imortalidade, como já dizia o autor da ARS Poética, Horácio: Aere perennius (mais perene que o bronze). Cedo despertou para o canto das musas, deve ter tido mestra dedicada que ao ensinar-lhe as letras do alfabeto incuti-lhe a visão e o sentimento do ritmo e da rima dos versos.

O livro Garruchas Cruzadas, 2ª edição, comemorativa dos 25 anos da Estância da Poesia Crioula, 1982, expressiva capa do mano Luiz Carlos Retamozzo, lê-se - 25 anos de poesia; 25 anos de Brigada Militar. Por uma simples operação aritmética descobre-se o ano de 1957, em que José Hilário completara 17 anos; a revelação do poeta, do jovem e do brigadiano. Celebrizou-se na espontaneidade de sua poesia. Naquele mesmo ano formava-se com os poetas gauchescos a Estância da Poesia Crioula, que reunia a fina flor da arte poética do Rio Grande do Sul. Lembro apenas alguns nomes: Hugo Ramires, Jaime Caetano Braum, Apparício Slva Rillo, Moacir Matheus Sempé, Aureliano de Figueiredo Pinto.

É admirável a dedicação do poeta na celebração dos 300 anos de São Borja, primeiro dos Sete Povos a ser instalado em suas humildes casas de pedra itacuru, Don Juan de San Martin, pai do Libertador da América Hispana, iria fixar seu governo das Missões. Dedica-lhe a ternura toda no amoroso e saudoso soneto:

São Borja
Eu te levei menor quando parti,
Cabias toda em meu olhar sereno
E ao recolher a timidez do aceno,
Não sufoquei meu pranto de guri.

Nenhum dos rumos deveu-me a ti
E em solidão tua ausência peno...
Mas não se cansa, o mesmo piá pequeno,
De namorar-te, quando volto aqui.

Vão nossas almas, das Missões as duas,
A respingar pelas antigas ruas
O que há de novo para os olhos ver...

E há nos teus olhos, terra humana e boa
O infinito do amor que me perdoa,
Pelo que sonho e não consigo ser.

A esposa Aldira acompanhava-0 nos saraus e na criação poética tendo dois livros escritos a quatro mãos: ABCdário Leonístico e ABC do 4º Dia. A produção literária de José Hilário é imensa e está esparsa em Antologias de Poetas Brigadianos. Sabia ser companheiro não só nas lides da Corporação como nas atividades culturais e artísticas, com os companheiros de farda e de ideais.

É autor de inúmeros hinos entre os quais são lembrados: de Rosário do Sul, de São Luiz Gonzaga, de São Miguel das Missões e do Clube Farrapos, foi também vencedor de vários concursos internacionais.

Quero recordar o primeiro premio que teve no Concurso de Poesia Lila Ripoll em 1997, com o poema Pequena Biografia da excelsa poetisa centenária (1905/2005) natural de Quarai. É um poema gracioso e lírico que relata a vida atribulada e tormentosa da musa revolucionária. Transcrevo os sete últimos versos, apresentados em três estrofes:


PANEGÍRICO A JOSÉ HILÁRIO AJALLA RETAMOZO

És livre, já liberta,
Um retrato que fora da moldura
Nem a dor, tua irmã, não mais aperta.
Há uma luz em teu nome que desperta
A paz que sempre foi a tua procura
Só o eterno te serve de moldura!
(Revista da Academia Rio-grandense de letras, janeiro de 1999, nº15 p. 159/161)

Venceu soberano o concurso promovido pela Câmara de Vereadores de Vacaria, sobre o magno acontecimento no planalto - O Rodeio - O poema Rodeio do Tempo de José Hilário sagrou-se vencedor e premiado, no dia 10 de janeiro de 1966. A obra teve a publicação pela Editora Pallotti, em 1966.
Vale à pena registrar dedicatória do livro;
"Enquanto houver no Rio grande do Sul, gaúchos, campos, honra, cavalos e coragem, Vacaria será o símbolo maior e a síntese de todos os Rodeios do tempo".
Rodeio do Tempo é lição viva da história e da tradição gaúcha, na marcha cavalariana dos séculos. Transcrevo para delícia da nobre assistência:

Cavaleiros andantes, não paramos
No intangível do século que passa...
Vamos além, ao bronze das vigílias,
Para insculpir nas horas andarilhas
Flamas e vôos imortais da raça!
(p. 27 Rodeio do tempo).

Sob a epígrafe de Rodeio do Tempo aparecem outros poemas, como Exaltação Farroupilha cuja estrofe final é uma clarinada de esperança.

Em vós crianças das auroras claras
Ensangüentadas do Ibirrapuitã
Repousa o sonho, destas almas guaxas,
De ainda ver o Rio grande de bombachas
Ao abrir as coivaras do amanhã!
(13/09/66).

Outro poema é Terra, Amor e Construção, hino a Porto Alegre, evolução em acróstico ternário, Que é Porto Alegre, afinal?

É o canto cosmopolita
Dos que vieram de além-mar
E aqui, na plaga Benedita,
Fizeram desta bonita
Querência, seu novo lar.
(26/10/66)
Notável é o poema Rodeios de Alegrete, que se encerra na estrofe final:

Alegrete dos cívicos pendões,
Ruflar de pinchos e mascar de freios,
Acampamentos a estrelejar fogões
E forja das mais altas emoções
Na síntese gaúcha dos rodeios (p.56)
Negro Clarim é um poema de realismo pungente, retrato das refregas farrapas, paraguaias e outras de que se reproduz a estrofe:

Era o soluço sem fim
de sua alma recalcada
aquela voz assoprada
naquele claro clarim. (p.82)
Não menos realistas são os versos do poema Maragato Louco. (p.87/91).
Não posso furtar-me de citar o soneto Ressurreição (Semana Farroupilha) o seu último terceto:

E os ventos de setembro, além das sedas,
Alimentam a luz das labaredas
E o galope dos gestos imortais. (P. 95).
O livro encerra-se com o soneto São Borja, com significativa dedicatória: "À minha mãe-semaria de ternura e mão que me protege".
O livro Rodeio do Tempo abre suas páginas com o Rodeio de Vacaria no planalto rio-grandense e, fecha-se com a visão de São Borja, nos lindes da pátria, com o terceto final:

E há nos teus olhos, terra humana e boa,
O infinito do amor que me perdoa
Pelo que sonho e não consegui ser (P. 119).
Muito se poderia dizer e apreciar José Hilário, poeta com mais de cem troféus, ocupou cargos importantes nos sodalícios literários e instituições: Sócio fundador da Estância da Poesia Crioula, Membro da Academia de Letras da Fronteira Sudoeste, Sócio Fundador da APESP- Correio Brigadiano, Diretor do Instituto Estadual do Livro, membro e Secretário Geral da Academia Rio-grandense de Letras, cadeira 40, sendo Patrono Alceu Wamosy, editor de várias antologias poéticas, autor do famoso poema De Braços Abertos elo qual é conhecido em todas as Polícias Militares do Brasil e do mundo:

Desse poema cito significativas estrofes:
E um dia acontece a violência do mal:
O homem fardado de braços abertos
No meio da rua - seu altar de holocausto -
Perece crucificado também...
Mas quando amanhece,
Outro homem fardado no meio da rua
No mesmo local, caminha sereno
De braços abertos e assim permanece.

Entre suas obras lembramos algumas: Rodeio do Tempo, 1966, Canto de Amor a São Borja, 1982, Garruchas Cruzadas, 1982, ABC do Brigadiano, 1982, Tentos e Loncas, 1993, em parceria com Rui e Zeno Cardozo Nunes; outras várias produções: Canto Livre, Provincianas, Rodeio Crioulo, Reduto de Bravos, Décimas e Milongas.
Em 2002 teve o reconhecimento do Governo do Estado que lhe outorgou a Comenda de maior valor cultural - Medalha João Simões Lopes Neto. O panegírico ao caro amigo, confrade José Hilário Ajalla Retamozo, se estende e pode se estender muito mais em nossas lembranças e em nossos corações, porque ele vive sempre em nós, não só por seus preciosos e imorredouros versos, mas pela força do amor e da amizade que se perpetua além do tempo e se projeta na eternidade.

  • • Reduto de Bravos – Versos de exaltação à BM (1969);
  • • Rodeio do Tempo – quatro poemas premiados e mais alguns gauchescos (1970);
  • • O Dois de Ouro em Rio Pardo – Monografia Militar (1970);
  • • Lua Andarenga – Poemas (1976);
  • • Provincianas – Poesias regionais (1976);
  • • Maragato Louco e Outros Poemas (1978);
  • • Canto Livre – Poesias (1978);
  • • Rodeio Geral – Poemas, em parceria com Aldira Retamozo (1978 e 1982 com o título “Rodeio Crioulo”);
  • • Abecedário Leonístico – Versos, em parceria com Aldira Retamozo (1977);
  • • ABC do 4º Dia – Versos, em parceria com Aldira Retamozo (1978);
  • • Antologia da Estância da Poesia Crioula (1970-1987-1990);
  • • Antologia de Poetas Brigadianos (1981);
  • • Antologia de Poetas São-Borjenses Natos e Adotivos (1982);
  • • Cantos Provincianos – Poesias regionais (1980);
  • • Trovas e Trovões – Versos (1980);
  • • Décimas e Milongas (1980);
  • • Alegrete em 4 Poemas (1981);
  • • ABC do Brigadiano – Versos (1981 e 1982);
  • • Rodeio Crioulo (1982);
  • • Canto de Amor a São Borja (1982);
  • • Garruchas Cruzadas (1982);