Atual instalações da Academia de Polícia Militar

A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Comemoração pela passagem do 2º aniversário do comando do Coronel Afonso Emilio Massot, em 1917.

A Federação, no dia 30 de março de 1917, sexta-feira, noticiava:

 Festa Commemorativa

 A passagem do 2º anniversário do Commando Geral da Brigada Militar – Outras notas

Faz, hoje, dous annos que assumiu o commando geral da Brigada Militar o nosso amigo Tenente-Coronel Affonso Emilio Massot.

Para commemorar essa data reuniu-se a officialidade da força publica do Estado, no Quartel do Commmando Geral e, ao chegar aquelle official, foi-lhe feita carinhosa recepção.

Por essa occasião foi inaugurado no salão de honra, o seu retrato, como justa homenagem pelos serviços que á milícia estadual vem prestando com elevado tino.

Nesse acto foi interprete do sentir da collectividade o capitão José Gomes Ferreira.

Respondendo, o homenageado, num bello improviso, repassado de exhortações e conselhos salutares, agradeceu commovido a prova de apreço que lhe tributavam os seus commandados, aos quaes dirigiu palavras de affecto pelo auxilio que prestam á sua administração, especialmente os commandantes de corpos, chefes de repartições e instructores.

Falou em nome dos officiaes do Exercito que servem como instructores na Brigada Militar o Tenente Jayme da Costa Pereira, que saudou o commandante Massot pelo 2º annniversario do seu commando.

O capitão auditor dr. José G. Ferreira pronunciou  o seguinte discurso:

“Coube-me a honra de vos dirigir a palavra neste momento solene em que nos reunimos para prestar o preito do nosso respeito e estima, ao passar do segundo anno em que vindes effectivamente commandando esta Brigada.

Principiaremos, porém, por vir pedir desculpas de invadindo a vossa auctoridade termos resolvido fazer pender das paredes desta sala de honra a vossa photographia como um dos mais dignos officiaes desta Força.

Esperamos que nos  haveis de desculpar esta nossa ousadia incluindo-vos na nobre galeria, sem a vossa permissão, pois estavamos certo de que si  fossemos vos pedir licença para esta homenagem não permittireis que a prestássemos: a vossa reconhecida modéstia se opporia a esta e nós ficariamos privados de satisfazer este nosso desejo.

Pedimos-vos que respeiteis entre tanto esta nossa resolução.

Esta homenagem que vos prestamos não obedece os sentimentos subalternos: não tem ella o fim de nos tornarmos agradaveis, nem o de captarmos sympathias, nem o de nos impormos á vossa gratidão. Não, é ella filha do nosso reconhecimento; é o fructo da nossa consciência e o tributo das nossas convicções; é enfim em obediência ao impulso natural de prestar honra ao mérito.

O vosso passado é por assim dizer uma gloria militar; e dizemos gloria militar porque no periodo revolucionário revelastes qualidades taes que nos leva a esta affirmação: coragem, firmeza de animo, energia. Estas qualidades tantas vezes postas em relevo em varios encontros sanguinolentos durante a revolução de 93 a 95 mais se destacaram no memorável sitio de Bagé, em que estivestes sempre a postos, sem um momento de descanso, atendendo aqui e ali, onde mais acceso era o ataque inimigo, para instilar no animo de vossos commandados esse sentimento de que ereis dotado – lealdade e dedicação á Republica.

Não somos da opinião daqueles que mandam apagar o passado, esquecer os feitos militares praticados dentro do paiz, na sufocação de uma revolução, porque, dizem, é recordar o sangue patrício derramado.

É de lamentar, é certo, esse sangue patricio vertido em tantos combates. Mas o que fazer si elle foi o resultado de um choque de interesses ou de convicções?

Qualquer que fosse a origem dessa lucta de irmãos, cabia, sem duvida nenhuma, á Força Publica manter a autoridade civil legalmente constituída, para cuja defeza é creada; portanto sempre lhe advirá glória do cumprimento desse sagrado dever. O contrario seria si ensarilhasse armas nessa séria situação, não correndo em defeza do governo contra as hordas revolucionárias.

E infamemente seria a sua acção si só passasse sem resistencia para ella, pois commettia neste caso uma traição ao governo.

Não relembramos aqui esse passado com ufania, mas o relembramos apenas para patentear o valor e sacrifício daquelles que souberam cumprir bem o dever, defendendo com risco de vida o princípio da autoridade republicana.

Pois si é funesto se tornar a nação vassalo do paiz extrangeiro, não é menos funesto a anarchia ou demagogia nella implantada, porquanto si a força publica creada para defesa do paiz e garantia das autoridades legalmente constituídas não se apagasse ás ordas revolucionarias, as mais das vezes, agitadas por aventureiros, as revoluções seriam tão reorrentes que acabariam por estabelecer a anarchia e, em consequencia se daria o seu esphacellamento.

Portanto, qualquer que seja o serviço militar prestado, quer na defesa da personalidade nacional contra invasões de extrangeiros, quer na defesa das autoridades legalmente constituídas, base da ordem, progresso e garantia dos cidadãos em suas vidas e propriedades, é sempre nobre, e glorificador.

Em qualquer destes casos a Força Publica cumpre os seus sagrados deveres e por conseguinte são dignos de serem apreciados os seus serviços como prestados para o bem do Estado e reconhecidos aquelles que o prestaram com dedicação.

Pois bem, a vossa acção durante a revolução foi leal, dedicada e profícua á causa Republicana.

Agora vos está confiado o commando geral desta força e estamos  convencidos de que vos havereis como vos houvestes: não destoareis do passado.

Jamais encontrará o governo do Estado quem vos excedesse em valor, abnegação e leadade.

Da guerra viestes coberto de serviços á causa republicana, na paz vos tendes conservado firme nas vossas crenças políticas e isto já tivestes ensejo de provar em momentos criticos que não convém aqui citar.

A vossa competencia esta reconhecida, quer sob o ponto de vista intellectual quer sob o ponto de vista technico.

A vossa capacidade de comando se tem revelado clara e positivamente não só na guerra civil que já lá foi como na paz, fazendo marchar a força  no mesmo gráo de instrucção e disciplina em que marchava sob a direcção dos dignos officiaes do Exercito que a commandaram.

Tendes conservado dita força de boa harmonia com todos as forças armadas no Estado e impondo-se ao respeito e estima dos nossos concidadãos.

O serviço tem sido feito nas suas variedades com a maior presteza e dedicação de sempre, não havendo a mínima demonstração de desagrado, ao contrário a força se tem manifestado satisfeita sob o vosso digno commando, pois que vos tendes imposto a sua estima e respeito pelo modo porque a dirigis com energia e justiça. E dizemos com energia por isso que este modo de agir bem se distingue da violência, tantas vezes confundidos: a energia é o compellir de alguém á observancia do dever, ao passo que a violencia é o coagir de alguém á prática de actos fora da lei, obedecendo os caprichos do quem manda e que por isso irrita os caracteres bem formados.

Tendes vos havido com justiça porque sabeis reconhecer os méritos de cada um de vossos commandados, dispensando-lhes as compensações que merecem e com brandura encaminhar no cumprimento dos deveres civis e militares aquelles que porventura delles se tenham affastado, compellindo-os por meios suasorios ao bom proceder, ao mesmo tempo que sabeis agir de modo enérgico, pois, com aquelles que são refractarios a seguir as boas normas.

Zelaes, emfim, pelo bom nome de que gosa esta Força em que vindes servindo ha muitos annos, exgottando a vossa mocidade ao serviço do Estado, dando sempre exemplos nobilitantes aos vossos camaradas.

Sentimo-nos, pois, bem sob vosso commando, e neste momento em que reunidos para vos saudar, como saudamos a passagem do segundo annno de effectivo e proficiente comando, hypotecamos a nossa solidariedade para cumprir a árdua e honrosa missão que está confiada á Força Publica do Estado, para que sejamos dignos da confiança e consideração do governo do Estado e respeito de nossos patrícios.”

Fonte: A Federação, Anno XXXIV, Edição 075, de 30/03/1917, sexta-feira, página 2. *Mantida a grafia da época.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *