A BRIGADA, HÁ UM SÉCULO … – Instruções para o Serviço de Padioleiros – Parte I

A Federação, no dia 15 de fevereiro de 1914, domingo, noticiava:

BRIGADA MILITAR

Instrucções para o serviço de padioleiros – Parte I

Instrucções para o serviço de padioleiros, em manobras e em campanha, na Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, contendo breves noções sobre os primeiros soccorros, prestados a feridos e doentes.

Este trabalho foi elaborado pelo capitão medico da Brigada – dr.  Armando Bello Barbedo – por determinação do sr. coronel dr. Cypriano da Costa Ferreira, commandante geral da Brigada Militar.

PREFACIO

Quem primeiro teve a honra de pensar na formação de um corpo de padioleiros foi o dr. Percy, um dos veteranos da cirurgia militar francesa, tendo seu util projecto um começo apenas de execução em sua pátria.

Outros países, pelo contrario, adoptaram logo sua feliz idéa e organizaram essa excellente e util formação militar, á qual deram um cunho de perfeição igual ao de outros serviços technicos, depois de haverem obtido na experiencia uma completa e cabal demonstração de suas vantagens.

Ha muito tempo que todos os exércitos de paizes adeantados possuem o serviço de padioleiros perfeitamente constituído; o da França só o teve mais tarde, em 1879, graças ao general Gresley, seu ministro da guerra nesse tempo, que determinou sua creação.

Os dados historicos supra-citados foram referidos pelo dr. E. Delorme, distincto professor da Escola de Applicação de Medicina Militar de Val-de-Grace, a quem deve bellas licções a technica desse ramo de serviço sanitario; elle salienta suas vantagens militares e humanitarias, na guerra, com exultação patriótica digna de louvor.

Entre ellas, destaca-se as seguintes

1ª – O serviço especial de padioleiros evita a pratica antiga de serem os feridos e doentes retirados do combate pelos próprios camaradas combatentes, o que tinha o grande inconveniente de desfalcar a tropa de seus elementos essenciaes de acção, por tempo indeterminado e ás vezes longo.

2ª – A perspectiva em que se acha o combatente de receber, quando ferido, um soccorro prompto e seguro, prestado por profissionaes competentemente habilitados, capazes de não deixal-o exposto a novo ferimento ou á morte, augmenta poderosamente sua coragem o da-lhe maior fimesa na lucta.

3ª – Finalmente, os preciosos resultados práticos, que emanam dos meios de transporte adequados e primeiros cuidados – tudo feito por pessoal competente e préviamente exercitado na technica respectiva – são evidentes e salvam innumeras vidas de servidores da Pátria, evitando mesmo a aggravação de muitos feridos, bem assim o conjunto de dores e sofrimentos horriveis, tão communs, quando o soccorro e transporte são ministrados por pessoal sem pratica.

Como se vê, é de incontestável utilidade na guerra o serviço de padioleiros bem organizado; além do seu elevado alcance moral, inspirando ao combatente a salutar confiança na solicitude e dedicação dos primeiros cuidados e curativos, traz sempre real vantagem no tratamento dos feridos, por isso que contribue, pelo transporte cuidadosamente feito e pelos primeiros soccorros intelligentemente executados, para a obtenção de bons resultados cirúrgicos, que muitas vezes disto só dependem.

O padioleiro, habilmente instruído nos misteres de sua nobre e siympathica missão, é mesmo um precioso auxiliar do medico, facilitando-lhe a acção e substituindo-o em muitas emergencias em que tiram todas as vantagens de sua iniciativa, quando bem ponderada e criteriosa.

Sendo o presente regulamento uma coordenação de regras e preceitos relativos a um serviço technico de saúde, é claro que os defeitos e lacunas, que porventura contenha, poderão ser melhor observados na sua applicação pratica, dando lograr a modificações opportunas.

Dr. Armando Bello Barbedo
Capitão Medico

Preliminares

Padioleiros – são praças destinadas especialmente a recolher e retirar do campo de combate os enfermos e os feridos, prestando-lhes os primeiros soccorros e curativos. Portanto, devem ser inteligentes, dedicados, caritativos e pacientes, além de robustos e ágeis, possuindo coragem passiva em alto grau e perfeita disciplina, visto terem de operar por si, independentemente das vistas de seus superiores.

O Padioleiro – deve conhecer perfeitamente a appIicação technica dos soccorros de urgência medico-cirurgicos, sabendo tirar vantagens dos meios improvisados, utilisando-se das peças de fardamento, armamento e equipamento. Tendo os padioleiros a nobre missão de retirar os feridos ou enfermos da linha de fogo, afrontando-a com presença de espírito e coragem, para condusil-os ao respectivo Posto de Soccorro, que deve estar installado ao abrigo das balas, é conveniente que o serviço de transporte seja feito pelo menor numero possível de padioleiros, em cada avanço para o campo de acção, sempre alternadamente, procurando abrigar-se do fogo inimigo, escondendo-se em obstaculos encontrados no caminho e nas irregularidades do terreno, bem assim procurando occultar do inimigo qualquer utensílio que possa chamar-lhe a attenção para as pontarias.

É também de vantagem não avançar para a linha de fogo, quando elle fôr intenso, e sim approveitar as suas interrupções, as mudanças de direcção, recuos e avanços da linha de atiradores, não perdendo ensejo para colher os feridos ou os enfermos, fugindo sempre das
zonas perigosas.

Dado o caso de serem os padioleiros obrigados a parar com os socorridos no trajecto para o Posto, devem procurar brigar-se e aproveitar, o tempo de parada prestando ahi mesmo os socorros de urgência a seu alcance, deixando-os em lugar seguro e voltando a conduzir outros feridos ou enfermos. Quando trabalharem á noute e defronte das posições inimigas, devem limitar-se ao uso cuidadoso de suas lanternas e nunca accender phosphoros, nem fumar, para não serem descobertos pelo inimigo.

Esse serviço será mais perfeito, com o uso da lanterna do dr. Barthier e professor Gossart, da Faculdade de Sciencias de Bordeaux, a qual tem o fóco luminoso invisivel para o inimigo, não podendo, assim, servir-lhe de alvo o padioleiro que a conduzir. Foi Ella  experimentada com o melhor exito em 1906, nas manobras do serviço de saúde de Toulouse e em 1907 nas do serviço de saúde de Bordeaux.

As regras acima são dispensáveis toda a vez que o serviço de padioleiros seja executado durante os armistícios.

O serviço de padioleiros de toda a Brigada Militar será feito pelos músicos de cada corpo, substituídos ou auxiliados, quando necessário, pelos enfermeiros ou ainda, de accordo com as neccessidades de occasião, por praças arregimentadas, escolhidas, de preferência entre as que já tenham pertencido ao serviço de saúde ou possuam os predicados acima referidos. A direcção geral do serviço compete ao official de saúde chefe em serviço.

N’um batalhão, operando isolado, o serviço de padioleiro será feito pela respectiva secção, que installará o seu Posto de Socorro. (Na Russia, os Postos de Soccorros, durante a guerra com o Japão, eram installados á distancia de dous mil metros da linha de fogo, como refere Follenfant, distância que julgo mais garantidora do que a commumente adoptada.

O 1º e 2º regimentos de cavallaria, por não terem actualmente bandas de musica, darão quatro praças idôneas, por esquadrão, a fim de receberem, no respectivo quartel, a instrucção de padioleiros, que os habilitará a prestar auxilio nesse serviço, nas formaturas geraes, quando for necessário e possível.

No systema prussiano e russo é isto applicado a todos os corpos, além de existir o quadro especial do serviço de padioleiros.

Os recrutas receberão no respectivo depósito a instrucção de padioleiros, ficando assim habilitados, para quando forem arregimentados.

O medico do deposito de recrutas enviará, trimestralmente, ao major chefe do serviço sanitário, uma relação nominal dos recrutas que tenham mostrado melhor aptidão para o serviço de padioleiros, a fim de, nos casos especiaes, mais facilmente serem escolhidos para esse serviço.

O mesmo requisitará, pelos meios legaes, o numero de padiolas indispensavel para a instrucção, de accôrdo com o pessoal existente.

Os padioleiros de cada corpo formarão a sua secção de padioleiros e o serviço geral de padioleiros da Brigada fica constituído por essas secções.

As padiolas são conduzidas em um carro especial, sob a guarda do respectivo conductor, que fará parte da secção de conductores.

A banda de música, quando apresentada para o serviço de padioleiros, não levará consigo o seu instrumental e estará desarmada.

A instrucção de padioleiros será dada em cada corpo pelo respectivo medico, no mínimo uma vez por mez e constará de ensino theorico e exercícios práticos. A essa instrucção assistirá o ajudante do corpo.

Os padioleiros, que em campanha, quer em manobras, terão o distinctivo de uma faixa branca, de linho, com 10 centimetros de largura, tendo no centro uma cruz vermelha, de panno garauce. Esta faixa será presa com alfinetes de segurança, em acto de serviço, na parte media do braço esquerdo, ficando a cruz voltada para o mesmo lado e tendo os extremos unidos por dous colchetes de pressão. Os officiaes usarão uma faixa idêntica e no mesmo braço, porém de flanella branca.

A conservação do material destinado ao serviço de padioleiros (bolsas, mantarias, padiolas, cantis, pacotes de curativos individuaes, pelota de Esmarch, lanternas, bussola, etc.) fica sob as vistas dos ajudantes dos corpos ou do alferes inspector da musica no que se referir à Banda da Brigada, os quaes providenciarão sobre os reparos necessários, mediante ordem da autoridade superior a quem darão parte, por escripto, das occurrencias nesse sentido.

Quanto á quantidade do referido material para o funccionamento regular desse ramo do serviço de saúde, deve ficar no critério do coronel Commandante Geral da Brigada, de accôrdo com a indicação major chefe do serviço sanitário, tendo em vista as peças sobrecelentes que, porventura, seja conveniente conservar em deposito.

Deve possuir cada corpo quatro padiolas (uma por companhia ou esquadrão), numero esse indispensável para a instrucção.

Quando formadas mais de uma secção, ou todas, o commando dellas será dado ao sargento de saúde mais antigo que se achar na formatura, o qual distribuirá o pessoal, conforme as ordens emanadas do respectivo official de saúde, em serviço.

A padiola, conduzindo ferido ou enfermo, será levada por dous padioleiros, quando a distancia a percorrer for pequena, em terreno plano e sem obstáculos a vencer; no caso contrario, a conduzirão os quatro padioleiros que a guarnecem.

(Continua)

Fonte: Jornal A Federação, ano XXXI, edição 039, de 15/02/1914, página 7 – *mantida a grafia da época

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